Um dia atrás do outro – Rubens Lemos

De mãos dadas com a enfermeira Sue Carpenter, ele parecia passear no bosque das redenções. Maradona saía de campo após…

De mãos dadas com a enfermeira Sue Carpenter, ele parecia passear no bosque das redenções. Maradona saía de campo após um balé muchacho em Foxborough, Estados Unidos. Liderou a vitória da Argentina sobre a Nigéria e reacendeu nos cafés de Bocas e Recoletas de Buenos Aires, a luz azul da fé no tricampeonato mundial.

O sol se punha de pé à canhota do craque renascido das polêmicas, dos delírios bisonhos e mergulhos enlouquecidos nas drogas que embaçavam a vida dele, o mais desconcertante portenho das Copas do Mundo.

Aos 33 anos, redesenhava o menino paupérrimo e iluminado que, aos 18, fizera o país passional exigir sua convocação negada pelo técnico Menotti para a Copa vencida em casa e aos cambalachos.

O Maradona de 1994 parecia se reencontrar com o Diego aumentativo de sonho de 1986, menos desbravador nas arrancadas e dribles e pensador meticuloso nas tramas e lançamentos para o atacante Cláudio Caniggia, autor do gol da virada de 2×1 em cima dos ousados africanos de verde.

Maradona e Sue caminharam para a cela de castigo dos astrais do ídolo derrotado moralmente. Flagrado por uso de cocaína, Maradona estava banido da Copa do Mundo, acusava culpados invisíveis e molhava de dramaturgia peronista o sofrimento hermano. Um dia, que ontem fez 20 anos.

Passados no borrão pela arte livre, soberana e pura, sem estimulantes, de Lionel Messi, sucessor tão brilhante e sem a indignação melancólica do rei que baba ódio por nunca ter sido jamais, o que foi e será indecifrável Pelé.

Messi é o dia atrás do outro no sorriso tímido emoldurando gols de repertório variado. Destroçou a Nigéria, sem desejos aparentes de revanche, com um petardo à Rivelino e uma falta de próprio timbre, eternizando novas e alegres imagens ao roteiro escrito duas décadas passadas.

A cada passo e balanço de criança travessa, sem o mal e a fúria a cercá-lo, Messi impõe a música pátria. Desconstroi a lição de um dos seus ícones, o trágico melodista Enrique Discépolos: “O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Com Maradona, talvez. Com Messi é quase samba.

Lógica

Lógica – que quer dizer nada em futebol, indica o favoritismo de Brasil, Colômbia, Holanda, Costa Rica, Argentina e França nas oitavas de final até o fechamento da primeira fase. O Brasil por estar em casa e pela tradição. Futebol por futebol, o Chile até mostrou mais qualidade nas primeiras rodadas. Acontece que a lógica é acostumada a perder de Wx0 num jogo mágico.

Quadrangular

A Copa do Mundo abolia o sistema eliminatório das quartas e semifinais em 1974 e instituía dois grupos com quatro equipes, com os dois primeiros se enfrentando na decisão. No dia 26 de junho, o Brasil vencia a Alemanha Oriental no sufoco. Rivelino cobrou uma falta sobre Jairzinho que saiu da barreira. A bola estufou a rede do lado comunista de Berlim. O Brasil seguia mal.

Sonífero

Há exatos 40 anos, o Nierdersachtadion, em Hannover, na então Alemanha Ocidental, recebeu 58.463 torcedores para ver a partida que é um infalível sonífero quando é reprisada por masoquistas em DVD. Sou um deles.

Times

O Brasil de Zagallo: Leão; Zé Maria, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas; Carpegiani, Rivelino e Paulo César Caju; Valdomiro, Jairzinho e Dirceu. Alemanha Oriental: Croy, Bransch, Kische, Weise e Watzlich; Kurbjuweit, Lauck (Lowe) e Hamann (Irmscher); Streich, Sparwasser e Hoffmann. Técnico: Georg Buschner.

Gozada em PVC

Na fina ironia, o pessoal do Sportv criou o bordão “estatísticas que não servem pra nada”. É uma gozação no DataPVC, o jornalista Paulo Vinicius Coelho, que só enxerga o futebol citando informações exatas de um numerólogo insuportável.

Até Trajano

Nem o seu companheiro de ESPN Brasil, José Trajano, suporta a autossuficiência de planilha de PVC. Os concorrentes, para tirar sarro, contam quantas vezes Neymar bebeu água, Messi passou a mão no saco, Cristiano Ronaldo afagou a cabeleira. Só pra sacanear PVC. Ele merece.

Pior grupo

Quinta-feira sofrível com o encerramento do pior grupo da Copa do Mundo, Bélgica enfrentando a lamentável Coréia do Sul e a Argélia topando os gélidos russos. Mais fraco do que o nível da chave argentina, que apresentou Messi, talento que dinheiro nenhum do mundo paga.

Eliminatórias

Critérios usados pela Fifa nas Eliminatórias são imperdoáveis. Um craque do nível de Ibrahimovic, da Suécia, ficou fora da Copa do Mundo enquanto barangas de Honduras e do Irã vieram espancar a bola no Brasil. O correto seria restabelecer o critério de vagas pelo talento de cada continente.

Melhores do mundo

Uma pancada na teoria de véspera. Espanha, Inglaterra e Itália, onde, segundo os sábios, estão os melhores campeonatos do mundo, decepcionaram com suas seleções cansadas. É possível que volte a se limitar a contratação de estrangeiros por clube. Está provado que a graça exaltada nos tais campeonatos é proeza dos forasteiros.

Cartões

É bom anotar os critérios sobre cartões na Copa do Mundo. O medo de um amarelo para Neymar é maior que o medo dos chilenos. Segundo a Fifa, jogadores com apenas um cartão amarelo ficarão isentos após as quartas de final, ou seja, nas semifinais.

Suspensão maior

Se um jogador for expulso com um cartão vermelho ou dois cartões amarelos na mesma partida, será suspenso automaticamente para o jogo seguinte. Mas a comissão de disciplina poderá decidir por uma punição adicional (suspensão de mais de uma partida ou multa, etc).

Roberto e Raul

Ex-América e ABC, o técnico Roberto Fernandes renovou com o Remo e vai dirigir o clube pelo qual foi campeão paraense na Série D. Ele é sempre um nome na ponta da língua no caso de demissão nos dois potiguares na Série B. Já o clássico – e por vezes adormecido meia Raul, com passagem no alvinegro, acertou com o Paysandu para a Série C.

Milagre da Copa

Um dos primeiros – e mais positivos legados da Copa do Mundo em Natal foi o ABC finalmente ter se livrado do cabeça de área Michel Smoller, inexplicável insistência. Boa sorte para ele. Smoller vai para o Remo indicado por Roberto Fernandes.

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