Um filho dos deuses – Alex Medeiros

O céu do Rio de Janeiro salpicava de estrelas naquele 25 de dezembro de 1944. E no infinito de uma…

O céu do Rio de Janeiro salpicava de estrelas naquele 25 de dezembro de 1944. E no infinito de uma outra dimensão, posicionada sobre a noite carioca, uma esfera luminosa cortou o espaço lançando um facho de luz na Cidade Maravilhosa.

Os deuses do futebol mandaram um cometa em forma de bola anunciar o nascimento de um ser especial, um salvador para a humanidade alvinegra de General Severiano, um escolhido para continuar os milagres lúdicos de um certo anjo das pernas tortas.

Jair Ventura Filho era o nome da boa nova. O mundo passaria a chamá-lo e bendize-lo apenas Jairzinho, o garoto enviado pelos deuses para ocupar o lugar e a missão de Garrincha, o grande profeta das massas, o mais amado pelo povo.

Adolescente ainda, Jairzinho entrou no templo da Gávea para tabelar uns papos e jogadas com os doutores do Flamengo. Não foi compreendido. Refutado pelos fariseus rubro-negros, foi trabalhar numa agência de publicidade, um “boy service”.

Quando pisou o gramado do campo de treino do Botafogo, com pouco mais de 15 anos, imaginou uma decepção maior. O time da estrela solitária era um celeiro de gênios, sem falar nos craques brigando por posição no banco de reservas.

No primeiro bate-bola, o chamado peneirão, o técnico Paraguaio dispensou 21 candidatos, mas pediu ao autor de dois belos gols que ficasse para uma conversa. Jairzinho se tornou titular e uma referência no time, e depois também nos titulares.

Nem o serviço militar atrapalhou seu largo futebol. Como juvenil do Botafogo e da seleção brasileira, o craque deu alegrias aos torcedores, com seus dribles desconcertantes e gols, muitos gols. Claro que merecia uma vaga no time titular.

E se era impossível barrar o mito, então se junte a ele. Assim o Botafogo fez, deslocando o talentoso ponta para a meia-direita. Formou-se um ataque letal com o eterno camisa 7 e o filho dos deuses enviado à Terra na noite de Natal.

Na grande trajetória de Jairzinho, houve aqueles que o tentaram parar com o chicote das faltas e os pregos da violência. Zagueiros no papel de guerreiros romanos o atacavam, foi caçado sem dó por figuras como Fontana e Moisés, do Vasco, e Aldeci, do América.

Quem pesquisa a imprensa esportiva daquele começo de anos 1960, vai encontrar diversas vezes a comparação inevitável entre Garrincha e Jairzinho. O jovem meia improvisado era considerado o substituto natural do entortador de Joões.

Em pleno reinado de Pelé, a torcida do Botafogo – chefiada pelo inesquecível Tarzan – chamava Jairzinho de “O Imperador”, quatro décadas antes do audacioso apelido de Adriano. Adivinhem o sonho do rei? Queria Jair jogando ao seu lado no Santos.

Entre 1965 e 1966, a Revista do Esporte e outros veículos publicaram reportagens sobre a proposta para o jogador transferir-se para a Vila Belmiro. O desejo de Pelé não se concretizou, e até teve um ensaio na desastrosa Copa do Mundo de 1966.

Ainda sob a sombra de Garrincha, este já em fim de carreira, Jair atuou duas vezes em Liverpool ao lado do rei, de ponta esquerda contra a Bulgária e de ponta direita diante de Portugal, o jogo trágico que mandou a seleção para casa e Pelé para o hospital.

Mas logo viria o México 1970, para a consagração do sonho de Pelé e a felicidade geral da Nação, que conquistaria o tricampeonato com o melhor time de futebol do mundo em todos os tempos. E tudo isto teve em Jairzinho o seu principal símbolo.

Nunca na História das copas algum outro jogador marcou gols em todos os jogos da competição. É um privilégio e graça do gênio de Jairzinho, que com seus gols e dribles em velocidade ganhou fama mundial como o “Furacão da Copa”.

Numa crônica para o livro “Todos Juntos, Vamos – Memórias do Tri”, Ziraldo batizou seu texto de “A Copa de Jairzinho”. O craque dos cartoons deixa claro que todos nós ficamos “maluquinhos” com Jair: “Fez gol de lençol, matando no peito e até de canela”.

Antes de encerrar a fantástica carreira, o craque se tornou ídolo do povo francês, ao lado do amigo Paulo Cezar Caju, jogando pelo time do Olimpique de Marselha. Em 1976, ajudou o Cruzeiro a ganhar a Taça Libertadores das Américas.

Uma vez, quando estrelas salpicavam o céu do Rio de Janeiro, Jairzinho parece ter visto um facho de luz apontar uma pelada num campinho de São Cristóvão. Foi até lá e descobriu um menino chamado Ronaldo. Eram os deuses, de novo, operando em seu nome. (AM)

Jairzinho

Republico a crônica sobre Jairzinho para não deixar passar em branco a data de hoje, 21 de junho, aniversário de 44 anos da conquista do tricampeonato do Brasil no estádio Azteca, no México. A marca do “furacão” continua inviolável e incomparável.

Tripé na Justiça

O PT anda esperançoso com o restante do ano e o futuro das suas lideranças presas. A presidência do STF está com Ricardo Lewandovski, o comando da Justiça Eleitoral com Dias Toffoli, e a relatoria do processo do mensalão com Luis Roberto Barroso.

Forças Armadas

Os comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica tiveram o bom senso e a coragem de não dar cabimento aos parasitas da famigerada comissão da meia-verdade. As três armas assinaram relatório não aceitando a condenação retroativa dos revanchistas.

Besteira

Os jornais estamparam manchetes assim “FIFA vai investigar atos homofóbicos”, mas em nenhum momento mostraram no miolo das reportagens duas coisas essenciais: a FIFA não é a Justiça brasileira e homofobia não está tipificada como crime no Brasil.

Democratas

A piadinha do senador José Agripino com a nota de Robinson Faria criticando o tratamento do DEM com Rosalba Ciarlini, destacada na Folha de S. Paulo, tem um motivo mais aparente do que apenas uma gozação. O estrago da nota foi grande.

Democratas II

Os setores do DEM que permaneceram fieis a Rosalba não só estão optando no voto contra Henrique Alves, o candidato de Agripino, como deverão trabalhar na desconstrução de alguns votos no interior que iriam para o deputado Felipe Maia.

Indiferença

O altíssimo índice de eleitores sem candidato a governador no RN, como revelado na aferição espontânea da Consult, é fato também em outros estados, com Santa Catarina, Rio e Minas Gerais. Neste último, todos os candidatos somados têm apenas 4 pontos.

Bola cheia

E a nova arena da Fonte Nova está se consagrando como aquela que recebe os melhores espetáculos da Copa 14 no âmbito técnico e da emoção. Três grandes jogos já aconteceram: Holanda 5 x 1 Espanha, Alemanha 4 x 0 Portugal e França 5 x 2 Suíça.

Estranho

Por que o setor de fiscalização química da FIFA fez exame antidoping em quase todo o time da Costa Rica e não em apenas dois ou três jogadores, como de praxe? O caso merece a repulsa não apenas da federação costa-riquenha, como das outras 31 seleções.

Surpresa

A grande pergunta ontem era “quem ensinou a Costa Rica a jogar bom futebol?” A resposta correta talvez nunca apareça, mas há um fato curioso: o time centro-americano treinou na Vila Belmiro. Ah, e a Espanha treinou em São Januário. Fica o registro.

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