Um olhar sobre Cadaqués – MARCO DE ALMEIDA EMERENCIANO, Advogado (malmeme@yahoo.com.br)
Na verdade, o titulo refere-se à cidade mais oriental da Península Ibérica, não distante da fronteira com a França. Cadaqués, localizada na Costa Brava da Espanha, é hoje uma pequena cidade de veraneio com forte apelo turístico e cultural, isolada por montanhas do restante da região do Empordá, na província catalã de Girona. É verdade que aqui na nossa terra temos lugares e praias paradisíacas, não discuto, mas trago hoje pequenas notas sobre uma praia com identidade hispano-francesa. A sua história indica que o povo vivia exclusivamente da pesca até finais do século XIX. Está a pouco mais de uma hora de Barcelona e o passeio é belíssimo, emoldurado por prados de oliveiras e vinhas. Como a cidade está entre rochas, formam-se pequenas enseadas que ali eles chamam de ‘calas’, com areia grossa e pedras simétricas. A água é cristalina, sobretudo quando os raios do sol lançam suas luzes sobre ela.
Veja caro leitor, que no âmbito histórico-econômico, ainda no século XIX foram famosas as indústrias de salgar. Mesmo que hoje não tenham a importância do passado, supõem uma parte da economia local não dedicada ao turismo. Entre seus produtos, destacam-se as ‘anchovas’, famosas pela qualidade. O idioma oficial é o catalão, e o prolongado isolamento do povo fez com que o catalão dali, ainda que com as particularidades típicas da zona, seja um caso único de diferenciação, com livros publicados expressamente para tratar esta peculiar fala. Também este isolamento se converteu num fator de atração para artistas e turistas. No começo do século XX chegaram turistas que foram se disseminando entre as diferentes zonas de fácil acesso e, como conseqüência, conservaram a virgindade urbanística. Distintas famílias de Barcelona, Figueres, Girona e outras cidades próximas veraneiam em Cadaqués desde o começo do século passado.
É o caso do mestre do surrealismo Salvador Dalí, cuja família tinha em cadaqués sua residência de verão. Dali fez de Cadaqués um porto seguro. Sua casa transformou-se em ‘Casa Museu Salvador Dalí’, considerado de visita indispensável para conhecer o universo do pintor. Situa-se na baía de ‘Portlligat’ e é formada por um conjunto de barracas de pescadores que foram adquiridas pelo pintor, a cujo espaço foi dada uma forma de labirinto. Foi aberta ao público em 1977, oito anos depois da sua morte. Em seu interior se exibem recordações do pintor, seu ateliê, a biblioteca, quartos, o jardim e a piscina. Dali, de fato, é natural de Figueres, a poucos quilômetros de cadaqués. Em sua cidade natal está instalado o Teatro Museu com seu nome em cuja fachada e interior predominam traços surrealistas. Uma das principais atrações da cidade e vale a pena uma visita.
Amigos catalães sempre falam que a vanguarda artística freqüentava a praia. Li que Federico García Lorca, Eugenio D’Ors, Pablo Picasso, Joan Miró, Richard Hamilton, Albert Ràfols-Casamada, eram alguns deles.
Cadaqués está muito próxima de ‘Cap de Creu’ (ou Cabo da Cruz, traduzido do catalão). Um promontório abrupto e rochoso que se lança sobre o mediterrâneo, formando parte dos ‘pirineus orientais’. No seu cume está o ‘faro do Cap de Creu’. Certa vez fui buscar informações junto à Autoridade Portaria de Barcelona e vi que trata-se de um dos ‘faróis’ mais emblemáticos da Espanha e o ultimo construído para corresponder-se com o farol do Cabo Barne, já na frança.
Salvador Dali enquanto estava em cadaqués, com seu jeito irônico e extravagante, era uma espécie de sentinela do seu mar. Vigiava sua praia como um farol. Aliás, dizem que talvez a invenção do farol tenha ocorrido por causa da preocupação das esposas e da angustia que, ao cair da noite, arruinava o coração dos que esperavam na praia pelo retorno dos pescadores presos em alto mar pelo vento, pelas correntes, pela maré ou pela mão de um Deus hostil.
No verão a cidade é mais alegre. Mas não perde encantos nas outras estações, justamente pela estrutura que oferece. Boa comida, vinho honesto e bons olhares.


