Um tiro – Vicente Serejo

Todas as tardes, na velha redação do Diário de Natal – Av. Deodoro n. 245 – no antigo salão do…

Todas as tardes, na velha redação do Diário de Natal – Av. Deodoro n. 245 – no antigo salão do cinema Poti, o presidente Getúlio Vargas disparava um tiro no coração. Pelos menos para quem vivia ali, olhando a primeira página emoldurada da edição do dia 24 de agosto de 1964 do Diário de Natal quando ainda era vespertino: ‘O presidente suicidou-se com um tiro no coração’. Os anos amareleciam o papel, e o presidente sangrava todos os dias como se ensinasse que a morte é uma eterna novidade.

Anos depois, tive o privilégio de reviver a cena quando assisti à peça com o ator Cláudio Marzo no papel de Getúlio e encenada nos salões do Palácio do Catete. Não lembro bem o título, mas acho que tinha qualquer de Um tiro que mudou a história. O Catete com as suas águias de asas abertas no frontão, seus pesados portões de bronze, salões de assoalhos lustrosos, candelabros, tudo simbolizando o poder. Acompanhávamos os atores usando pantufas, até aquele final com Getúlio sentado na cama.

Muito antes da primeira página do Diário, seu nome já vivia pregado na alma do menino, como velho conhecido. Desde que seus olhos viram aqueles dois nomes escritos em alto relevo, marcados com tinha forte e que encimavam as duas pequenas arcadas das entradas, de um lado e outro, uma delas voltada para a Rua da Frente: ‘Vila Getúlio Vargas’. Morto desde 1954, quando o cronista tinha três anos, nem por isso fugiu de mim. Daí o interesse que se mantém vivo a cada novo livro lançado.

Quando apresentei Lira Neto na Feira do Livro, a convite de Osni e Rílder, depois do debate convidei o biógrafo para jantar. Alongamos a conversa dentro da noite e então perguntei pelos grandes caudilhos gaúchos, aqueles sobre os quais meu sogro, doutor Omar Lopes Cardoso, falava nos tempos da Revolução de 30, como Batista Luzardo, o lenço vermelho no pescoço. Lira pesquisou longamente sobre a história política do Rio Grande do Sul, o poder de mando exercido por eles com vigor e altivez.

Sessenta anos depois, como anunciava a peça de Cláudio Marzo, o tiro matou Getúlio, mas não calou a História. O Getúlio que parecia destroçado politicamente quando presidiu a última reunião do seu ministério, no Catete, deixaria o Palácio, no dia seguinte, nos braços do povo para ser canonizado nas ruas. Basta por os olhos na multidão incalculável como se um mar de gente enfrentasse aquele mar de Copacabana. Getúlio morto, Getúlio vivo. Numa ressurreição que ninguém foi capaz de imaginar.

Muitas vezes ouvi Antônio Guedes contar como foi, na manhã de janeiro de 1943, chamado para fazer a barba de Getúlio que estava em Natal para encontrar o presidente Franklin Roosevelt, em plena II Guerra Mundial. Sua mão direita segurava a navalha – naquele tempo era alemã, com lâminas Solingen – e não podia tremer diante do olhar de Gregório Fortunado, o Anjo Negro, guarda-costas de Getúlio, este que até hoje ainda passeia num Jeep pela história desta vila onde vive esta gente daqui…

FRISSON – I

É grande, desde ontem, o frisson com versões antecipadas dos números das pesquisas anunciadas para amanhã – Consult – e na quinta o Ibope. Nas duas antevisões as claras lideranças de Henrique e Wilma.

MAS – II

A rigor, o que parece intrigar aos próceres, agradar a uns e desgostar a outros, seriam os novos sinais de descolamento de Henrique e Wilma, como mostrou a pesquisa Seta em Mossoró e suas cores locais.

ALIÁS – III

Apesar de todo cuidado no trato dessa questão, as lutas locais no interior são mais fortes que o apelo dos candidatos. O que acaba dando às disputas um sentido furta-cor que poderá enganar a muita gente.

ESTILO

Dizia ontem uma raposa com anos no bosque da política e entre uma garfada e outra de um bom risoto de carneiro: ‘Na guerra das palavras um estilete bem manejado pode ferir bem mais do que um facão’.

CRISE – I

Os economistas petistas não enxergam a crise econômica que se aprofunda, atingindo as camadas mais populares. Deu no Jornal Nacional: brasileiro já se endivida até para pagar as contas de água e energia.

ALIÁS – II

Na entrevista de páginas amarelas, na Veja, o economista Armínio Fraga sem esconder a sua penugem tucana, avisa: ‘A retirada do Brasil dessa UTI de subsídios e proteções precisa ser feita com cuidado’.

MORTE

Por falar em Veja, anotem: o texto de Lya Luft sobre a morte na edição desta semana, ela que perdeu duas paixões na vida, é primoroso. Para ela, a morte que deveria ser natural ainda é um grave enigma.

AVISO

Ao feérico jet-set natalense que coleciona seus carrões e pensa que todo mundo tem a inveja danada: a presidente Dilma Rousseff tem na declarações de bens Fiat modelo 1966 avaliado em R$ 6 mil reais.

SERÁ? – I

Na coluna Radar, de Veja: o médico-monstro Roger Abdelmassih teria dito que revelou sua presença no Paraguai só em segredo de confissão. Teria sido quebrado o intocável segredo do confessionário?

QUEM – II

Aliás, não se sabe com certeza se há natalenses que devam seus filhos a Roger Abdelmassih que foi durante várias décadas um endereço de quem tinha condições de pagar caro uma fertilização in vitro.

HISTÓRIA

A presidenciável Marina Silva foi aluna do professor Homero Costa, da UFRN, quando ele ensinava na Universidade do Acre, em Rio Branco. Assim como o professor Pedro Vicente Costa, já falecido.

VIDA

Vem aí a história ‘Toda Liberdade é Íngreme’, já considerada uma biografia impecável do advogado Sobral Pinto. Com revelações sobre sua defesa de Luiz Carlos Prestes e o seu não a Fernando Collor.

OUSADIA

Mais espantoso do que a ver a escalada da violência é assistir ao ex-secretário Aldair da Rocha na tevê pedindo voto para deputado federal pelo trabalho que prestou na área de segurança pública. Incrível.

HUMOR

De um prefeito decepcionado, mas calmo, ou talvez escondendo a desolação por mais uma desculpa recebida: ‘Todo candidato, mesmo importante, tem um assessor para botar chupeta na boca da gente’.

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