Uma candidatura

Ninguém, a não ser um órfão de sólida consciência crítica e política – ou movido por interesses de ordem pessoal…

Ninguém, a não ser um órfão de sólida consciência crítica e política – ou movido por interesses de ordem pessoal – pode acreditar na construção de uma candidatura nascida apenas da legalidade jurídica. Se fosse assim, seriam candidatos todos os cidadãos e cidadãs de bem. Uma candidatura, queiram ou não seus artífices, é uma construção política e pressupõe, inevitavelmente, forte e saudável conjunto de atributos não só individuais, mas nascidos da prática pública voltada para o bem comum.

Talvez por isso pareça distante, a quem tem consciência crítica, as reais possibilidades de uma candidatura da governadora Rosalba Ciarlini. A não ser a quem omite, com interesses não declarados, que neste momento lhe faltariam todas as condições. As legais, pois está sob julgamento que lhe impõe a inelegibilidade e até a perda de mandato – embora passíveis de revisão por tribunal superior, em Brasília – e as políticas, aquelas que lhe legitimariam o direito pleno de pedir o povo da sociedade.

Como se constrói uma candidatura? Com o amparo da lei, mas também de uma legitimidade coletiva. Não pode ser apenas um direito previsto em lei ou nascido da vontade pessoal, do poder pelo poder. Se não nasce das manifestações naturais, ou nasce apenas para servir a este ou aquele capricho; ou, tanto mais grave, se nasce da convicção da força do poder para conquistar o voto pela cooptação e até o medo e não pela conquista, então estamos diante de algo profundamente estranho e macunaímico.

Não precisa ir aos intrincados pressupostos da lógica cartesiana, nem às peripécias da magia da persuasão para saber que, mesmo livre das acusações legais julgadas no Tribunal daqui e passáveis de revisão pelo Tribunal Superior, a candidatura Rosalba Ciarlini não teria legitimidade. A não ser que se aceite terem razão os que acreditam que um governo tudo pode. Se, na democracia desregrada dos áulicos, o poder pode tudo, qualquer candidatura posta à porta dos cofres públicos se legitima por si só.

Qual o argumento dos que defendem a candidatura Rosalba? Certamente que não seria pelo confronto com uma dezena de categorias sindicalizadas. Pelo colapso na garantia dos serviços que são deveres de Estado – saúde, educação e segurança. Pelas denúncias de improbidade protocoladas pelo Ministério Público. Pela fiscalização do Tribunal de Contas ao duvidar da propalada crise financeira. Pela perda de todos os seus aliados políticos ou seu desgaste brutal junto a 80% da população ativa.

Uma candidatura que coleciona todas essas perdas, Senhor Redator, e mesmo que a justiça lhe devolva amanhã as condições legais, não pode ter legitimidade política. A luta democrática, por mais incipiente, como no caso brasileiro, não pode ser exercida por quem substitui a legitimidade por uma certidão negativa. Não foi à toa que a classe política deste país assistiu ao movimento sindical ocupar as fábricas, depois as ruas, e acabar conquistando o poder e assumir o Palácio do Planalto há 12 anos.

 

TOQUE – I

Um leitor desta coluna telefona para dizer que a aliança do PDT com o PMDB não vai deixar de ser o retorno de Carlos Eduardo à condição de liderado de Henrique Alves, ‘o que é também um retrocesso’.

EFEITO – II

Esta é a visão, segundo o leitor, de quem viu o prefeito enfrentar um candidato patrocinado pelo primo Henrique Eduardo para derrotá-lo nas urnas, em 2012, ‘quando de sua disputa com Hermano Morais’.

NA – III

Verdade, o leitor esqueceu de dizer que o hoje prefeito Carlos Eduardo enfrentou Fernando Mineiro, PT; e Hermano Morais, PMDB. A diferença é que Hermano teve o patrocínio do seu primo Henrique.

OLHO – I

O Ministério Público começa a se interessar pela aplicação da renda das paróquias em programas de filantrópicos e assistenciais. Resultado prático da lei de acessibilidade para boa transparência pública?

CRITÉRIO – II

Uma fonte curial esta semana chegou a admitir que o arcebispo Dom Jaime Vieira teria sido abordado por um douto representante do Ministério Público sobre quais os critérios para a nomeação de párocos.

É… – III

O dinheiro da Igreja vem do povo, em forma de doação, e há o acordo do governo brasileiro com a Santa Sé. É um sinal dos tempos. Nem a Igreja está acima da lei. É ter cuidado com as coisas de Deus.

RETRATO

As mensagens de políticos no dia da mulher, pelo menos nos jornais locais, bateram todos os recordes do mau gosto, quando não resvalaram para a feia e tirana literatice. As nossas mulheres não mereciam.

PRESTÍGIO – I

Chega de Brasília a notícia de que monsenhor Lucas Batista é o único sacerdote da Arquidiocese de Natal convidado diretamente pela Nunciatura, em Brasília, para a cerimônia do Consistório, em Roma.

ALIÁS – II

O prestígio de Lucas junto ao hoje cardeal Lorenzo Baldisseri foi registrado por esta coluna quando era núncio no Brasil e demonstrou preferência para nomeá-lo bispo. Mas sua própria arquidiocese barrou.

DESINFETAR – I

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 80 anos, defende na entrevista de capa da Forbes que é preciso ‘desinfetar o aparelho do Estado da militância partidária’. O PT, é visível, infectou em excesso.

MAIS – II

Na entrevista, a mais aberta nos seus oitenta anos, FHC confessa que desejou trazer a copa, mas acha que ‘houve exagero na criação de tantas sedes’. Ora, o PT imaginou doze palácios petistas simbólicos.

DÚVIDA

Até quando o prefeito Carlos Eduardo Alves sustentará alguns dos seus auxiliares na equipe? Até pelo menos passar a campanha, ou seja, novembro. Mas já sabe que alguns não revelam bom desempenho.

TIRO – I

‘Um nome que considero supervalorizado no mercado é Beatriz Milhazes. Ela tem a obra agradável, mas não é nada contundente. Já o Romero Brito não dá nem para comentar. É um embuste mesmo’.

QUEM? – II

A frase é de Ralph Camargo, considerado hoje um dos maiores conhecedores da arte brasileira e suas relações com o mercado. Declaração entre outros tiros está na entrevista de páginas amarelas de Veja.

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