Uma ideia faz cem anos

Há 140 anos, a 15 de março de 1874, nascia em Macaíba o escritor Henrique Castriciano de Souza. Criador da…

Há 140 anos, a 15 de março de 1874, nascia em Macaíba o escritor Henrique Castriciano de Souza. Criador da Liga
de Ensino e da Escola Doméstica de Natal, pioneiro na educação das mulheres, foi também fundador dos Escoteiros do
Rio Grande do Norte. Era irmão de Auta de Souza e Eloy de Souza. O texto é da jornalista Rejane Cardoso, escrito para a
revista do Tribunal de Contas e transcrito numa homenagem a um dois maiores nomes da intelectualidade no Estado.

Dois mil e quatorze vai entrar para a história de Natal como o ano da inauguração do seu novo estádio e a participação da cidade na Copa do Mundo. É a retomada do sentimento de cidade moderna, cosmopolita, esquina do continente, como no tempo da Segunda Guerra Mundial. Mas, o que muitos natalenses talvez não saibam é que há cem anos a Europa se fez presente aqui, com a importação de um modelo educacional dos mais conceituados do mundo com um padrão suíço voltado para a mulher do século 20.

Quando a Europa entrava em conflito na Primeira Guerra Mundial, um poeta visionário concretizava o sonho de levar às jovens da sua terra a capacidade de não apenas ler, escrever e fazer contas, mas administrar as suas casas, serem cidadãs preparadas para o novo tempo. Para que se tenha ideia da inusitada preocupação com a educação feminina, somente em 1927 Celina Guimarães, natalense radicada em Mossoró, foi inscrita como a primeira eleitora do Brasil, no governo Juvenal Lamartine.

Logo na primeira década do século 20 a educação da mulher já era a grande preocupação do poeta e político – Henrique Castriciano, nascido em 1874 no pequeno e importante centro comercial que foi Macaíba, a 26 km de Natal.

Órfão de pai e mãe, foi criado com seus irmãos no Recife pela avó materna Silvina – a “Dindinha”, viúva bondosa e inteligente, porém iletrada – que enfrentando todas as dificuldades conseguiu administrar os negócios da família. Mais do que isso, conseguiu dar educação acima do padrão vigente às cinco crianças, entre elas: Eloy, Henrique Castriciano e Auta de Souza. Nomes que se tornaram destaque na política e nas letras no país, e dispensam apresentações nesses tempos de internet.

Silvina, que já perdera o marido e cinco filhos, continuava firme construindo o futuro dos netos órfãos – o mais velho, Eloy tinha apenas cinco anos. Certamente a sua história de luta foi determinante para tornar a educação feminina uma obstinação num Henrique já adulto e um dos maiores homens de ideias da sua terra no seu tempo.

Com saúde frágil, desde criança ele dedicou-se à literatura e começou a escrever crônicas no jornal A República aos 18 anos, fase em que também voltou-se com maior intensidade para a poesia. Em 1901, perdeu a irmã Auta, poetisa que morreu jovem, tuberculosa. E, como também já tivera pneumonia tratada nos sertões do Rio Grande do Norte, em 1909 viajou para a Europa em busca de consulta e tratamento de bócio na Suíça, em companhia do médico, político e escritor Afrânio Peixoto, seu velho amigo que, ao vê-lo restabelecido, o acompanhou a outros países da Europa e Oriente.

É seu irmão Eloy quem narra nas suas Memórias: “Teve Henrique desde sua primeira viagem a alegria de fundar a Liga de Ensino em que figuraram os norte-rio-grandenses mais ilustres nas letras, no comércio e nas profissões liberais, primeiro passo para a fundação da Escola Doméstica de Natal, a 1º de setembro de 1914, educandário que servirá e já tem servido de modelo para organizações semelhantes em outras unidades da Federação”.

Em discurso realizado na primeira reunião da Liga de Ensino, presidida pelo governador Alberto Maranhão, a 23 de julho de 1910, Henrique narra com olhar de cronista as primeiras impressões no fim do outono de 1909, quando viajava no lago Leman, de Genebra para Lausanne: “A barca estacionou um instante em Coppet, onde, com a mais viva alegria, entraram diversas educandas, acompanhadas das professoras, em respeitosa camaradagem, sorrindo ao sol de outubro…”

E mais adiante fala sobre a primeira visita que fez à École Ménagère de Friburgo:

“A diretora, alta, robusta, muito à vontade no seu avental de dona de casa, enquanto me mostrava os diversos compartimentos da escola, ia respondendo, com bondade, sem constrangimento, às perguntas que eu fazia, lisonjeada, talvez com a minha admirada curiosidade”. E conta sobre as aulas teóricas e práticas de higiene, puericultura, fisiologia alimentar, cozinha, corte e costura – incluindo engomado e a reforma de roupas usadas – “porque, dizia ela, a verdadeira educação é a que ensina a moça a não considerar inferior qualquer serviço doméstico”.

Ao sair, registra Henrique: “… ao deixar a escola, uma série de reflexões se apresentava ao meu espírito. Naturalmente, eu comparava o que vira ao que se passa no Brasil. Recordava os nossos tristes métodos, fundados em irrisórias práticas mnemônicas, a ausência de exercícios físicos, de trabalhos manuais de caráter utilitário e a ação deprimente de tais métodos sobre a natureza feminina”.

Henrique não pode estar presente à tão esperada inauguração da Escola Doméstica de Natal: dificuldade para voltar de uma nova viagem à Europa durante o primeiro conflito mundial. O governador Ferreira Chaves instalou a escola na Ribeira a 1º de setembro de 1914 e Henrique só voltou a Natal em novembro. E depois vieram as diretoras: suíças, francesas, norte-americanas, alemãs, brasileiras… e as alunas de todo o Rio Grande do Norte e de diversos Estados do Brasil.

Câmara Cascudo, biógrafo do “Nosso Amigo Castriciano” conta: “Não foi surpresa que um Roy Nash, executando viagem penitencial em 1921, dissesse de Natal: “Nesta cidade sonolenta encontramos a mais ultramoderna e útil escola para moças, de todo o litoral brasileiro: a Escola Doméstica”.

E agora, um século depois, a escola do Tirol virou um complexo, que vai das primeiras letras à universidade. Os tempos mudaram, ou mudamos nós? Neste século 21, cheio de entusiasmo pela gastronomia, que já tem cursos universitários em Natal, a nossa ED não estariam se fechando demais? A História da Alimentação de Cascudo não seria boa vertente para os estudos teóricos e práticos? A casa nordestina não poderia ter um museu dentro da própria escola? E o imenso terreno que vai até as dunas não poderia ser uma trilha ecológica nas férias e fins-de-semana?

Procuro ver no Google o que acontece nas Écoles Menagères da Suíça e logo no primeiro link tenho a notícia: “La supression des écoles menagères tradicionelles”. As reviravoltas do mundo político, religioso e social dos anos 1960 foram o começo das transformações. Na década seguinte, as escolas chegaram a ser contestadas e boicotadas pelas críticas mais radicais, até que em 1981 ocorreu a reforma, com algumas matérias do ensino doméstico se inserindo em cursos secundários. Agora, nos cantões suíços, moças e rapazes estudam juntos trabalhos manuais, atividades criativas sobre têxteis e economia familiar.

O que diria o Dr. Henrique Castriciano de tudo isso?

 

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