Uma visão além do alcance: É o Jet de Natal ‘se achando’ nas redes sociais

Igualdade entre classe social e valor humano é a medida que a maioria usa para divulgar tanta fotografia de si mesmo

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Eita época esquisita essa em que o povo tira foto de si mesmo para jogar na rede e ser comentado. Nível de carência jamais visto ou típico subproduto da massificação de eletrônicos? Um pouco dos dois, eu creio. O sujeito acorda, registra a cara mal amanhada. A gata se arruma para a noite, tem que ter foto de corpo inteiro para o açougue virtual. Está em um lugar badalado com amigos, modo câmera para que todos fiquem sabendo de seu assessor de comunicação portátil. Até embarque em aeroporto é motivo para publicidade. Dizem que hoje as coisas só funcionam assim.

Tempo bom aquele em que a futilidade do jet se restringia a mandar fotografias para colunistas sociais e pedir a divulgação. Uma vez eu estava no escritório de um conhecido jornalista dessa área, na hora em que chegou uma menina com aparência de ter entre 18 e 22 anos. Ela tinha acabado de retornar de uma viagem aos Estados Unidos (Miami, pra variar) e queria que Natal inteira, ou pelo menos os leitores do veículo em questão, soubessem onde esteve nas últimas semanas. Mais animada do que criança com passe livre em loja de brinquedo, suas orientações eram claras.

Como uma editora de imagens, discorria sobre ângulos favoráveis de sua face, posicionamento na página e texto-legenda que explicasse bem direitinho que o local retratado era um dos mais ‘bombados’ da Meca dos novos ricos. Isso com propriedade, segurança sobre as diretrizes. O colunista ouvia tudo com atenção, com a mão no bolso a contabilizar os quinhentos reais que ganhava por mês da família da bestona para divulgar asneiras cotidianas (jantares, happy hours, veraneios, etc) – fato confirmado pelo amigo que motivou minha presença ali naquele ponto comercial, para entregarmos material de um evento; sem ‘jabá’, felizmente. A gatinha era eloquente.

Para essa gente, status baixo pode ser interpretado a partir do nível de desconforto físico e psíquico que o anonimato causa. Sem a notoriedade almejada, diminui o respeito próprio, e aí vem a ansiedade e a depressão – quem não conhece aquela infeliz que sofre por ganhar menos do que precisaria para fincar bandeira na high society? Não a toda brasileiro está no G4 de dívidas no cartão, cheque especial e no consumo de tranquilizantes, como Rivotril. Fora da vista do nicho focado, a obscuridade e a indistinção esmagam seu amor próprio. O vazio existencial vira a única solução.

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A incerteza congênita que os adeptos do selfie têm em relação ao próprio valor é angustiante. Seu senso de identidade é escravo da opinião do grupo que admira, como se a aprovação dos outros fosse o remédio para se suportar. Por isso tanta fotografia de momentos completamente inexpressivos – encaixados em seu egotismo deprimente. De preferência anunciadas por frases enigmáticas, para estimular a curiosidade alheia. Fazendo biquinho, barriga encolhida, cabelo arrumado para emoldurar o rosto nem sempre tão bonito, a mania pegou. Algumas pessoas que eu julgava sérias aderiram com entusiasmo, como se uma arqueologia íntima tivesse liberado um desejo soterrado.

Prestar conta através de imagens sobre onde foi, o que comprou, com quem anda, para centenas de seguidores, virou medida de cálculo na escala de valores atual. Postar no perfil uma vida social e profissional agitada, almoços em lugares bacanas são sinônimos de sucesso. Mesmo que as coisas simples, como ser educado, honesto, prestativo, ler um livro por mês (sem ser para concurso), diminuir a maquiagem, entender que existe algo além, e mais interessante, do que bolsas e sapatos, e que a vida é uma só para perdermos tempo com adoração à máquinas e objetos, tenham caído em desuso.

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