#VaiTerCopa

Por Demétrio Magnoli, na Folha   “Protesto é quando digo que não gosto disso ou daquilo. Resistência é quando faço…

Por Demétrio Magnoli, na Folha

 

“Protesto é quando digo que não gosto disso ou daquilo. Resistência é quando faço com que as coisas das quais não gosto não mais aconteçam.” O mês era maio; o ano, 1968; o lugar, Berlim Ocidental; a autora, Ulrike Meinhof, uma jornalista de extrema-esquerda que, dois anos depois, organizaria o ato terrorista inaugural do grupo Baader-Meinhof.

O “protesto” contra a Copa no Brasil impulsionou as manifestações de massa de junho do ano passado. A “resistência” à realização da Copa, expressa no dístico “#NãoVaiTerCopa”, ameaça degradar ainda mais nossa democracia, dissolvendo a política no caldo da arruaça e da violência.

A Copa é uma desgraça – ou melhor, é uma síntese de diversas desgraças: desperdício de recursos escassos, desvio de dinheiro público para negócios privados, desprezo a prioridades sociais, desrespeito aos direitos de moradores submetidos a remoções compulsórias.

Mas a Copa é legítima: dois governos eleitos, o de Lula e o de Dilma, decidiram sobre a candidatura brasileira, a legislação do evento e a mobilização de recursos para a sua realização. “#NãoVaiTerCopa” é a bandeira de grupúsculos políticos que não reconhecem as regras do jogo da democracia.

A Copa da Fifa, dos “patrocinadores oficiais” e das “marcas associadas” é um “negócio do Brasil” fincado no terreno do sequestro legal de dinheiro público. A Copa da Fifa, de Lula e de Dilma é uma tentativa política de restaurar o passado, em novas roupagens: o “Brasil-Grande” dos generais Médici e Geisel, emblema da coesão social em torno do poder.

O “protesto” contra a Copa evidencia o fracasso do governo na operação de ludibriar o país inteiro, embriagando-o num verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar. Mas a “resistência” contra a Copa só revela que, no 12º ano do lulopetismo, a praça do debate público converteu-se no pátio de folguedos de vândalos e extremistas.

Quando escreveu sobre “protesto” e “resistência”, Meinhof concluíra que a Alemanha Ocidental era um “Estado fascista” disfarçado sob o véu da democracia representativa. Fanáticos sempre podem dizer isso, descartando com um gesto banal todo o aparato eleitoral, institucional e jurídico das democracias.

“Estado policial” é a versão brasileira do diagnóstico de Meinhof. Ao abrigo dessa invocação, configura-se uma perigosa aliança tática entre lideranças radicalizadas de “movimentos sociais”, pseudo-anarquistas, extremistas de direita e black blocs.

Nas suas redes sociais, misturam-se delírios revolucionários, iracundas acusações contra a “mídia” e líricos elogios ao regime militar. Depois do “#NãoVaiTerCopa”, emergirá o “#NãoVaiTerEleições”, prometem esses depredadores da política, enquanto acumulam arsenais de rojões de vara.

O “protesto” contra a Copa tocou fundo na consciência das pessoas. Contudo, foi represado pela lona impermeável da coalizão governista e, ainda, pela adesão voluntária de governadores e prefeitos dos partidos de oposição à farra da Copa.

Na Copa das Confederações, os cordões policiais de isolamento de um “perímetro de segurança” em torno dos estádios atestaram que, no Brasil rendido à Fifa, o direito à manifestação pacífica tem uma vergonhosa cláusula de exceção. Os incautos interpretam o “#NãoVaiTerCopa” como prosseguimento dos protestos de junho. Mas, de fato, o estandarte autoritário funciona como antídoto contra manifestações pacíficas e pretexto ideal para a repressão ao protesto legítimo.

“Agora, depois que se demonstrou que existem instrumentos outros além de simples manifestações; agora, quando se quebraram as algemas da decência comum, a discussão sobre violência e contraviolência pode e deve começar novamente”, escreveu Meinhof. O “#NãoVaiTerCopa” é uma atualização tupiniquim daquela conclamação à “contraviolência”. A resposta certa a ela é dizer: #VaiTerCopa –infelizmente. (DM)

 

Neuroteatro

Cientistas renomados começam a criticar a pantomima que Miguel Nicolelis quer fazer na Copa do Mundo, colocando um paraplégico para chutar uma bola com ajuda da robótica, técnica que EUA, Japão e Israel já dominam com os tais exoesqueletos.

 

Deu na Folha

- Michael Graziano, da Universidade de Princeton, diz ver excesso de ênfase na engenharia dos projetos, em detrimento das questões de ciência básica. “Dizer que dentro de dez anos resolveremos esses problemas soa muito implausível para mim”.

 

É só cena

O neurocientista americano Edward Tehovnik diz na Folha que o plano de Nicolelis resultará apenas numa cena “mais bem descrita como um robô controlando os movimentos de uma pessoa do que o inverso”. Uma demonstração prematura, diz.

 

Planos A e C

Wilma de Faria quer ser senadora, mas gostou de alimentar seus eleitores com a perspectiva do governo e chegou a abandonar a ideia da Câmara Federal. Agora, o plano B pode ter acabado de vez e voltam o A (senadora) e o B (deputada). Dizem.

 

Elegância

Vou repetir. O PMDB (leia-se Henrique e Garibaldi) não pode deixar que Fernando Bezerra viaje no feriado do carnaval sem um completo conhecimento do quadro interno no partido. Se for para rifá-lo do jogo, que ele faça as malas, já consciente de tudo.

 

Reeleição

Há quem garanta que Rosalba Ciarlini já está inelegível e há quem discorde. No segundo caso, a governadora partirá mesmo para uma candidatura à reeleição, mesmo com os altos índices de rejeição. Mas, crendo que pode abocanhar 30% dos votos.

 

Bye, Roseana!

O desgoverno do Maranhão vai corroendo a popularidade da governadora Roseana Sarney, que tem no pai José Sarney um aliado predileto do PT e de Lula. Pesquisa do DataM mostra que ela só tem agora 21% da intenção de voto para o Senado.

 

Vicentinho

O deputado acariense chegou em Natal desinformado sobre as conversas do PT com o PSD e tratou de pregar a reprodução da aliança nacional com o PMDB. Depois de informado, aprumou a mira do discurso para novas declarações no fim de semana.

 

Economia

“O recuo da produção industrial nos últimos três anos foi acompanhado de redução do emprego no setor. O aumento do produto industrial em 2013, 1,2%, foi insuficiente para compensar a queda de 2,5% no ano anterior”. (Rolf Kuntz, no Estadão)

¨

Deu na Época

“A máscara é um disfarce. O capuz de Caio e o voto secreto do Congresso serviam para esconder o nome e o rosto de quem sabotava a democracia. Nem Caio nem os deputados queriam assumir seus atos diante da sociedade”. (Ruth de Aquino)

Compartilhar: