Vão me levando

Sebastião Batalha Filho, funcionário público, ainda está no juvenil do Bar do Azulão, onde resistem fígados blindados no aço inoxidável.…

Sebastião Batalha Filho, funcionário público, ainda está no juvenil do Bar do Azulão, onde resistem fígados blindados no aço inoxidável. Faz um ano e meio que Batalhinha, torcedor apaixonado pelo Fluminense e filho orgulhoso da briosa Pau dos Ferros, lá no Alto Oeste, bate o ponto entre mesas veteranas na calçada da Avenida Afonso Pena, chamada de Oscar Freire de Natal pelos representantes do grã-finismo de cheque especial.

Batalhinha escuta histórias contadas por lendas vivas observadas por dourados fantasmas da cidade. O Azulão teve um governador lírico, o advogado Ney Marinho, Tio Ney, magérrimo, espetacular figura humana, que lá fez seu púlpito de verdade humanista e de onde só seguia para casa.

Ney Marinho comandava a boemia na sua doçura e fidelidade, ainda nos tempos de Joãozinho Amorim, antigo proprietário, quando os porres ocupavam um largo espaço em azul berrante na Rua Apodi, ébrios cumprimentando os soldados do 3° Distrito Naval.

Tomei poucas cervejas no Azulão. Era novo demais e antiguidade há muito tempo era posto e condição inexorável. Cheguei a ver, muito menino ainda, sem detalhes de memória, meu pai dividindo mesa com Tio Ney, o médico Jahyr Navarro e o comerciante Carrapicho, estátua resistente de folclore e lábia para repassar da geladeira ao esquimó, ao gosto do freguês.

Recordo e com nitidez, a tarde em que o ladrão Pedro Caçarola foi se meter por lá. Pedro Caçarola tornou-se um verdadeiro inquilino da Delegacia de Furtos e Roubos. Bateu o recorde internacional de recolhimentos à cela. Foram 280 vezes em dois anos. Eu começava a rabiscar na reportagem.

De tanto ser capturado e consumir gasolina da polícia e suor dos agentes, passou, ele próprio, a se entregar, garantindo dormida em chão frio e de graça, além da comida paga por nós, os eventuais roubados.

No Azulão, Pedro Caçarola ganhou o andar manco que diminuiu seu ímpeto. Cismou de meter a mão numa carteira de cédulas deixada no banco do carro de um fazendeiro, chapelão e olhar frio. Caçarola meteu a mão pela janela e ecoou o disparo de pistola calibre .45 que estraçalhou seu joelho.

Eram outros tempos, a Rádio Patrulha chegou, levou o bandido, a Marinha estava preocupada com seus assuntos e o certeiro ruralista permaneceu tomando seu uísque até a boca da noite. Foi uma das minhas primeiras visões de sangue abundante jorrando de um corpo humano. Desagradável, mas a gente acostuma com o pique da vida real do jornalismo.

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O Azulão rende dois compêndios do filólogo Antônio Houaiss e uma Enciclopédia Barsa. Completa e pesando 20 quilos. Todo dia passo por ele. Reverencio em silêncio e solidariedade os disciplinados diaristas. O Azulão me vem agora, trazendo Batalhinha, o novato, enquanto escrevo a cidade em meio a um dilúvio de quinta-feira, providencial para lavar saudades, por conta do poeta e compositor Dosinho, sepultado ontem.

Longe de acreditar – nem desacreditar – em sobrenatural ou sinais premonitórios. Na verdade, tenho é algum medo. O fato é que há três dias jogava conversa fora com Batalhinha, ele a contar episódios do seu reduto para a eternidade. E depois dela amém.

Batalhinha mencionava outro homem encantado da cidade – o médico Grácio Barbalho, um dos maiores especialistas em Música Popular Brasileira da história do país, sem exagero bairrista. Doutor Grácio sabia tudo e mais seis meses de lambuja.

Contaram a Batalhinha que me repassou com o devido aumentativo, o suposto encontro inesperado de uma comitiva do Azulão com Doutor Grácio numa das alas do Hospital São Lucas, Doutor Grácio deitado na maca:

– Pra onde vai Grácio? Perguntou um dos integrantes da bancada etílica.

– Eu não vou, vão me levando -, teria cantarolado o mestre, com destino a UTI pela última vez antes de ir embora para sempre.

Grácio Barbalho gracejava sobre a dor num verso famoso de Dosinho, maior carnavalesco da cidade no tempo das pessoas mais felizes e irreverentes, companheiras, sem ódio nem ranço.

Dosinho é autor do hino do ABC, tantas vezes cantado por mim, em vitórias e derrotas e morreu dois dias depois da história detalhada e repetida por Batalhinha. Dosinho que não combinava com luto nem coincidências, partiu numa quinta-feira de enxurrada. Dosinho não se foi, foram levando. Na dúvida, é perguntar aos bucaneiros dinossauros do Azulão, onde Batalhinha começa carregando o piano para a Velha Guarda fazer o solo rebelde.

 

América muda

Leandro Sena fez uma Série B muito boa assumindo o América para descascar um tremendo abacaxi. O time jogava bem e pra frente. Não cometeu erros tão graves, mas adotou um conservadorismo que não combinava nem com seu estilo quando jogador.

 

Rai

E a manutenção do lateral Rai agitou a torcida de ira. Leandro Sena deixa o América para se tornar uma carta na manga de muito time.

 

Rápido

É inegável que o América foi ligeiro e tomou medidas drásticas para estancar a crise pela goleada no Ceará. Em alguns jogos pela Copa do Nordeste, o CSA do técnico Oliveira Canindé pareceu um time arrumado. Para ele, o América é um tremendo desafio.

 

Chinelo

O narrador Marcos Lopes, da Rádio Globo, anotou e fiquei matutando até concordar com ele. Parece enfermaria de guerra a situação de alguns jogadores machucados jogo sim, jogo não pelo ABC. Qualquer malandro enxerga outro. Ou outros. A turma do chinelinho precisa de um aperto.

 

Time

Para o segundo turno, o técnico Roberto Fernandes tenta definir um time titular e básico, mesmo que não conte com os assíduos clientes do médico Roberto Vital. É escalar o que tem e rezar. Uma certeza o torcedor alvinegro pode ter: pior não fica. E Octávio agradou.

 

Alemanha

É inspirado na eficiência alemã que o presidente do Globo, Marconi Barreto, escolheu as cores do time. O nome eu imaginava que seria homenagem ao antigo time de Natal, mas é exaltação ao jornalista Roberto Marinho. Assim explicou Marconi Barreto para a nova edição da Revista Placar.

 

Orgasmo bandido

A polícia prendeu uma quadrilha acusada de assaltos a agências dos Correios dentro de um motel em Mossoró. A gangue estava na orgia, literalmente gozando da cara da sociedade. Estão todos bem comportados na Polícia Federal. sociedade. Estão todos bem comportados na Polícia Federal.

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