Vaticano resolve adiar a canonização do mais novo santo brasileiro

Em Natal, Paróquia de José de Anchieta, em Lagoa Nova, comemora a santificação

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Marcelo Lima

Repórter

O sacerdote conhecido pela dedicação aos índios brasileiros deixa de ser apenas um “bem-aventurado” (beato) para agora ser chamado de São José de Anchieta. Isso porque o Papa Francisco assina amanhã (3), no Vaticano, o documento que o torna santo. A data para a assinatura do decreto de canonização do jesuíta beato seria nesta quarta-feira (2).

Mas apesar do adiamento, a programação em homenagem ao padre está mantida e na paróquia de José de Anchieta em Natal, passará o dia comemorando a santificação do padroeiro do bairro de Lagoa Nova. Às 19h de hoje, também haverá uma missa solene em homenagem à santificação.

Em Natal, a paróquia de José de Anchieta passará o dia comemorando a santificação do padroeiro do bairro de Lagoa Nova. Uma das devotas natalenses mais fervorosas é Maria Auxiliadora Albuquerque de 64 anos. O seu fascínio por um dos pioneiros da catequese dos índios no Brasil começou ainda na infância. “Quando eu estudava, eu sentia uma afinidade pelo trabalho dele com os índios e a catequese”, contou. Mas foi em 1974, quando se mudou para o Estado do Amazonas, que sua fé foi impulsionada. “Encontrei no quintal da minha casa uma relíquia de Anchieta. Estava até meio sujo de areia”, falou. Segundo ela, era um papel enrolado contendo um pedaço da batina do padre e a informação escrita que aquilo era uma relíquia sagrada.

Auxiliadora passou pouco mais de dois anos na cidade de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, na fronteira com a Venezuela. Quando retornou a Natal, ficou com grande expectativa que sua casa fosse perto de uma igreja que tivesse o padre Anchieta como padroeiro, mas não se preocupou em procurar. Contou apenas com a fé. Ao conhecer o bairro teve a grata surpresa. “Minha casa fica só a cinco minutos da igreja”, destacou.

Depois da chegada, a relíquia foi utilizada uma vez como símbolo de fé. O pároco da igreja, padre Francisco Lucas, estava com a visão reduzida progressivamente em um dos olhos. O pároco e a devota afirmaram que, depois de uma oração com a relíquia no olho, padre Lucas teve seu problema de visão solucionado.

Hoje em dia Auxiliadora se dedica aos estudos da vida do sacerdote e também coleciona relatos de milagres alcançados para sua família e pessoas próximas. Uma delas foi de sua filha que estava grávida e teve catapora. Ao pedir a intersecção do então padre Anchieta, sua filha, segundo conta, melhorou. A neta não nasceu prematura nem com seqüelas da doença da mãe. Um caso ainda mais grave da possível cura de um câncer no pulmão em um jovem de 25 anos foi levado para o Colégio dos Jesuítas em São Paulo para auxiliar na santificação. Mas não foi preciso. Os relatos de graças e milagres alcançados são muitos. No entanto, para alcançar o status de santo, o Vaticano dispensou o processo regular, processo incluiria a comprovação de um milagre. De acordo com o padre Lucas, isso só ocorreu em função de Anchieta ter uma história “especial” de dedicação aos mais necessitados e à fé cristã.

Em 22 de junho de 1980 foi proclamado beato pelo Papa João Paulo Segundo. Porém, o processo de beatificação havia começado no século 17, mas o processo não prosseguiu.

Apóstolo do Brasil

O mais novo santo brasileiro nasceu nas Ilhas Canárias, Espanha, em 1934. Segundo o padre Lucas, aos 14 anos de idade foi estudar em Portugal. Um dos motivos para vir para a então colônia portuguesa foi o seu diagnóstico de “espinhela caída”. “Ele veio para ajudar na missão, porque em Portugal disseram que ele poderia ficar melhor morando em outro continente”, contou padre Lucas.

Já integrando a Companhia de Jesus (ordem dos Jesuítas da Igreja Católica) aos 19 anos, chegou ao Brasil. Aqui ele escreveu os capítulos mais relevantes de sua história. Ele é um dos fundadores da cidade de São Paulo e participou da fundação de tantas outras.

Anchieta não se restringia ao sacerdócio. Também desenvolveu habilidades como professor, historiador, gramático, escritor, enfermeiro e até médico, manuseando plantas medicinais que faziam parte da tradição indígena. Conseguiu aprender e ter fluência em tupi-guarani. “Ele escreveu até uma gramática da língua tupi-guarani. Se esses estudos tivessem sido levados à frente, o Brasil hoje provavelmente teria duas línguas oficiais”, comentou o líder religioso da paróquia de São José de Anchieta.

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