Veterano de guerra e gol – Rubens Lemos

Homem que é homem, chora. Sozinho. Então fui para o quarto, fechei a porta e mergulhei a cabeça no travesseiro.…

Homem que é homem, chora. Sozinho. Então fui para o quarto, fechei a porta e mergulhei a cabeça no travesseiro. Lágrimas desciam devagar para doer mais a tortura pela eliminação do Vasco, melhor campanha do Campeonato Brasileiro de 1988. Terminou com quatro jogos a menos e um ponto a mais que o campeão Bahia.

O Vasco perdera de 3×2 para o Fluminense. Venceu nos 90 minutos de 2×1 e jogava pelo empate, em razão da campanha superior. O tricolor, com um daqueles timinhos traiçoeiros que costumava armar, era a sombra do tricampeão carioca de 1983/84/85. Brasileiro de 1984, Vasco, vice. Caiu no confronto das quartas de 1988, Vasco arrasador e liderado pelo meia Geovani, estilista e melhor jogador da temporada.

Embalado, o Vasco freou com a paralisação do campeonato em dezembro para recomeçar no final de janeiro de 1989. Perdeu a primeira partida por 1×0, gol contra de Zé do Carmo, que cabeceou como um Romário. O ruim é que foi para o cantinho da trave do goleiro Acácio. Zé do Carmo botou a mão na cabeça e nós perdemos o rumo.

No segundo jogo, o Fluminense manteve o volante Donizete grudado a Geovani. Na filosofia do vigilante, o alvo pode até dançar samba de breque em sua frente, desde que não saia com a bola. Donizete tomava três, quatro dribles e derrubava Geovani. Se recompunha, triunfal. No primeiro tempo, em contra-ataque, um corredor lhe foi aberto à consagração: Donizete recebeu lançamento primoroso de Washington fez 1×0, obrigando o Vasco a virar para provocar a prorrogação.

Ao fim do primeiro tempo, o velho Roberto Dinamite fez o pivô e tocou para o chute corajoso do jovem Bismarck mandar a bola às redes de Ricardo Pinto. No segundo tempo inteiro, pressão cruzmaltina.

Aos 44 minutos, (minhas) unhas devastadas, falta em dois toques dentro da grande área tricolor. Geovani cobra com efeito e parece coroar com a bola a cabeça do zagueiro Leonardo, de onde ela parte como bólido para o segundo gol.

Ainda aos 18 anos e com menos de uma temporada em redação, vibrei me esgoelando. Enfim justiça e o Vasco seria campeão atropelando Bahia na semifinal e fosse qual fosse o adversário na decisão.

A euforia é perigosamente embriagadora. Em campo, desengonçado, magro e caneludo, permanecia o centroavante Washington. Marasmo de goleador é parente do silêncio das cadeias. Antecede a uma convulsão, uma rebelião, uma explosão.

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O Fluminense abriu 1×0 na prorrogação com um reserva -Zé Maria- um tipo inexpressivo presente no sobrenatural nascido para estragar prazer e desaparecer. O Vasco, em desespero, partiu para o ataque kamikaze.

O time inteiro, menos Acácio, sufocando o Fluminense. Sobra uma bola com alguém de camisa verde, branca e grená. Washington arranca e para, Acácio imóvel. Ele ameaça chutar, o goleiro despenca e o chute por cobertura sai sutil, uma navalhada cravando 2×0 em nossa ferida.

Washington e Assis formaram uma famosa dupla de renegados. O Casal 20, em alusão a uma enjoada série policial da Rede Globo. Assis fazia tremer rubro-negros. Matava-os nas decisões.

Em 1983, a massa majoritária festejava no Ex-Maracanã e o delgado camisa 10 tocou por baixo de Raul, gol do título de 1983. Lá estava ele, outra vez, para meter a cabeça com força no ângulo do argentino Fillol e garantir o bicampeonato.

Assis assombrava o Mengo, Washington judiava do Vasco. Antes do gol que me chorar, Washington estragou meu aniversário de 13 anos. Recebia presentes, cara feia para quem entregava meias e cuecas, mas com rádio ligado na Globo 1220, Waldyr Amaral narrando.

Estreavam pelo Vasco os zagueiros Daniel González (um espetáculo) e Nenê, revelado pela Ponte Preta. Foi 3×1 para o Fluminense, três gols de Washington e, quando revia as fotos da festa, tripudiava de minha própria carranca de desconsolo. Washington fez outras e tantas, como driblar Acácio quatro vezes antes de fazer o gol. Eu aos 17 anos.

O domingo das páginas esportivas é triste. Abro o noticiário e leio a notícia da morte de Washington em Curitiba (PR), aos 54 anos. Washington lutava contra a esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa.

Nos últimos meses, estava sendo acompanhado diariamente por uma equipe médica e ainda assim seu corpo foi encontrado sem o respirador. A polícia vai investigar o caso. O mal que abateu o artilheiro é raro e, de acordo com especialistas, atinge combatentes com estresse de batalha. Um veterano de guerra. Era Washington, da patrulha de Assis.

Rogerinho

O dono da rodada foi o meia Rogerinho do ABC. Fez o que quis contra o Icasa nos rotundos 3×0. Golaço de falta e um passe tão perfeito que o atacante Beto, de pontaria torta, conseguiu acertar o gol. Madson foi garçom para João Henrique marcar o terceiro.

Campanha

O ABC nunca teve um começo tão bom de Série B. Está provado que o meio-campo ainda é o centro nervoso, é o Pentágono da bola. Quem tiver inteligência por lá, leva vantagem. O ABC com dois meias, está em quarto lugar.

América

O América chacoalhou o Vila Nova no Serra Dourada e 3×1 foi pouco, muito pouco. O time fez o suficiente para vencer e está na sexta posição. É injustificável a ira de alguns exigentes. Não existe nenhum timaço em todo o futebol brasileiro e o América jamais poderá ser cobrado igual a Real Madrid.

Amanhã

De nada valerão os jogos do fim de semana, sem vitórias amanhã.

Torneio Início

Quem nunca foi a um Torneio Início não sabe o que é futebol por dentro. Chegava bem cedo, para ver todos os jogos, cada um com dois tempos de 15 minutos, geralmente decididos por pênaltis.

Há 29 anos

No dia 26 de maio de 1985, 2.744 torcedores foram ao Castelão (Machadão) assistir a América 1×0 Riachuelo, Alecrim 2×0 Atlético, ABC 5×4 América nas penalidades. ABC ganhou do Alecrim, também nos tiros livres, por 6×5. Após 0x0 no jogo.

Times

ABC: Pavão; Vassil, Luís Oliveira, Sérgio Poti e Valdeci; Baltasar, Rômulo (Adalberto) e Tião; Quinho, Neinha e Djalma (Leandro Perequeté). Técnico: Givanildo. Alecrim: César; Saraiva, Ronaldo, Cléber e Soares; Álvaro, Didi Duarte e Odilon (Emídio); Curió, Beto Platini (Ademir) e Romildo. Técnico: Ivã Silva.

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