Vice-aniversário – Rubens Lemos Filho

Vascaíno de verdade é masoquista ortodoxo. É vice-torcedor. Ora, o Vasco continua vice. E da Série B, depois de perder…

Vascaíno de verdade é masoquista ortodoxo. É vice-torcedor. Ora, o Vasco continua vice. E da Série B, depois de perder para o lanterninha, o Vila Nova de Goiás. No dia em que podia assumir o primeiro lugar, apanhou para um time que tem de ídolo, Júnior Xuxa, autor do gol da vitória de 2×1. Júnior Xuxa, refugo do ABC, é das masmorras das subcelebridades boleiras.

Vascaíno de verdade admira grandes nomes da imediata reserva. Jango, de vice, tornou-se Presidente da República até ser apeado pela Ditadura Militar. Jango era vice e era Vasco. Monsenhor Walfredo Gurgel, lá dos Caicós de Santana, foi vice. De Aluízio Alves que o lançou governador.

Monsenhor Walfredo Gurgel era vice. E era Vasco. Seu vice, Clóvis Motta, presidiu a Assembleia Legislativa e iria muito mais longe na política, não tivesse morrido tão jovem, aos 50 anos de idade. Clóvis Motta era Alecrim, muitas vezes vice nos anos 1960. Bicampeão com ele na presidência.

Vice de Getúlio Vargas, o natalense Café Filho foi goleiro. Do Alecrim. Um vice que a história mostrou dúbio. É que antigamente você votava no Presidente e no Vice. O titular poderia ter o imediato da chapa contrária.

Getúlio desprezava Café Filho e ele então juntou-se aos seus inimigos, Carlos Lacerda, o jornalista e víbora brilhante, à frente. Café Filho assumiu o Governo após o suicídio do caudilho e ainda quis impedir a posse do maior estadista brasileiro Juscelino Kubitscheck. Café foi um presidente sem atributos de grandeza e êxitos no cargo. JK foi um presidente tão bom que tinha de vice o depois defenestrado Jango, encarregado dos contatos nas áreas sindicais e trabalhistas.

Jango e JK hoje batem papo com alguém que um dia seria eles, Eduardo Campos, o pernambucano torcedor do Náutico, Hexa quando ele era criança e eterno vice em sua adolescência.

O Vasco da Gama é inspirado no navegante português. Vice-Rei da Índia. É carma secular. Vasco da Gama cruzou mares, comandou expedições descobriu terras, povos, costumes, sempre com aquela cara de marola do time de 2008, um dos piores de todos os tempos, farandola do primeiro rebaixamento.

Não é de hoje que o Vasco paga a prenda de vice. De 1978 a 1981, foi quatro vezes o segundo colocado, perdendo para Flamengo e uma vez para o Fluminense em 1980. Mesmo assim, o Flamengo é o maior vice brasileiro, embora seus torcedores arrogantes o coloquem como o Barcelona com Messi na reserva do adotado croata Eduardo da Silva.

Lembremos dos bons tempos. O Vasco foi grande forte, vitorioso e destemido, no Expresso da Vitória, dos anos 1940 até o início da década seguinte, quando conquistou o Sul-Americano, sua primeira Libertadores.

Uma jornada memorável com o maravilhoso goleiro Barbosa pegando pênalti na final contra o estupendo River Plate, La Máquina, de Di Stéfano, o argentino que sempre quis ser maior do que Pelé e sequer conseguiu dissipar a dúvida tríplice com Maradona e Messi na preferencia dos seus humildes compatriotas.

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Quando deixava minha vice-maioridade, o Vasco me deu presentes preciosos de 18 anos de idade. É aquele time o time que me faz ver o Vasco com os olhos da alegria distante e escassa.

O Vasco de 1988 não tinha nada de segundo lugar, esnobava ginga com os dois melhores jogadores brasileiros da época – Geovani e Romário – e sapecou cinco vitórias consecutivas sobre o desesperado Flamengo de Bebeto, Renato Gaúcho, Leandro, Andrade, Jorginho, Zinho e Leonardo.

Há um jogo especial para mim. A segunda das cipoadas da Quina, como a imprensa apelidou a série de surras naquele tempo. O Vasco havia dado um show no domingo anterior, vencendo de 3×1, dois gols de Sorato, um de Vivinho. Não fez mais por piedade.

O Vasco venceu de virada e o melhor do jogo, maravilhoso, aconteceu antes. Elegante, espigado, de paletó e gravata de linho italiano, mocassim, Valdir Pereira, o Didi, patriarca dos meio-campistas brasileiros e bicampeão mundial pela seleção brasileira em 1958/62, ocupava a Tribuna de Honra do Ex-Maracanã.

Repórteres deixavam o gramado, abandonavam os boleiros tensos antes da partida e procuravam o Mestre, incomodado com o assédio que ultrapassara as glórias dos lançamentos, dribles e chutes de curva.

Perguntaram a Didi quem, daqueles 22, jogaria no seu tempo. Monossilábico, não demorou centésimos: “Só Geovani, Geovani do Vasco, que é craque e joga bonito”. Nenhuma dissertação teórica valerá mais do que a verdade do gênio.

Geovani não ouviu mas retribuiu. O Flamengo fez 1×0. Bebeto saiu para provocar a torcida do Vasco. Soltando beijinhos. No segundo tempo, Geovani, mago esquecido, fintou Andrade, puxou em elástico a bola do pé direito ao esquerdo e lançou de 40 metros para o jovem Bismarck.

Bismarck cortou, de uma vez, o zagueiro Edinho e Bebeto e bateu para empatar. Depois, o fabuloso Leandro perdeu a bola para Romário que aplicou um balão no goleiro Zé Carlos e tocou de cabeça, virando a partida.

Foi mais importante que o jogo final, o do gol de Cocada. Último título sobre o Flamengo. Há 11 anos, só fracassos. Ser vascaíno é ser esperança e naufrágio. É saber que amor e vice têm quatro letras. Uma a mais que dor. Vasco, 116 anos hoje, 21 de agosto.

 

Meia

O ABC procura um lateral-esquerdo. Deveria correr atrás de um camisa 10. Na Série C.

Timbó

Quando Timbó foi contratado para arrebentar no ano passado, estava jogando pelo Águia de Marabá, na Série C. Não é possível que exista um melhor que os atuais.

Andrey

Voltou ao gol do América antes da hora. Estava sem ritmo e falhou não por incompetência, mas pelas circunstâncias. E FH vinha com moral.

Morais

Contra o Náutico, Oliveira Canindé não deve ser maluco de deixar Morais no banco. Um jogador tão habilidoso, irrequieto e perigoso tem que começar o jogo.

Versátil

É como os medalhões da mídia estão chamando a seleção de Dunga. Podem ter razão. É a ruindade de um Luiz Gustavo com a nulidade de Hulk.

Programas eleitorais

Alguns programas eleitorais superam o ridículo dos vesperais de Sônia Abrão. Outros, reforçam diferenças conceituais. Outros, o humorismo lamentável de quem pede o voto sem condições de ser nem candidato.

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