A vida de um roqueiro inglês dos anos 60 em nossa adolescência

Minha defasagem acabou, agora que a história de um dos ídolos de um período fantástico chegou em português

Conr1

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Dizem que a História é um acidente futuro, pois só o tempo é capaz de construir uma narrativa aceitável do agora. Sei que eu era moleque, tinha uns 15, 16 anos, quando pegava o ônibus na Salgado Filho, em frente à Potilândia, e ia bater na casa de meu amigo Gustavo Bittencourt, em Petrópolis, para escutar música. Ele tinha uma das principais coleções de discos da galera do metal e por essa época viajara aos Estados Unidos, de onde trouxe vários vinis e CDs, então uma novidade restrita à meia dúzia de abonados. Não sei se era emprestado, mas um dia tocava “Nothingface”, dos canadenses do Voivod. Em meio a centenas de álbuns, ele era apenas mais um.

Talvez pela insistência com que rodava na casa de Gustavo e na de outros malucos que formavam a comunidade metaleira na virada 80s para 90s, comecei a gostar de um trecho do quinto álbum da banda que mudou de estilo feito o homem-gol Cláudio Adão de time. Precisamente a terceira faixa, o cover do Pink Floyd, “Astronomy Domine”. Notas estranhas, erráticas, como se anunciassem uma tragédia para as próximas horas, cantadas por uma voz sem muita confiança no que está dizendo.

Eu não gostava do Pink Floyd. Sabia que era cânone, que meio mundo reverenciava, só que minha fase brucutu (isso durou até meus 22, 23 anos) impedia a assimilação de sons de ventos, pássaros, efeitos viajantes, e a coisa toda que eles vendiam. Não adotava a máxima do Manowar (banda de metal tradicional com estética “Conan, O Bárbaro”, que talvez seja uma das mais legais na história do gênero), avessa a teclados com toda a sua ira anabolizada – “No keyboards!” vinha estampado em suas capas. Mas nada muito leve ou sofisticado ganhava minha atenção. Somente baterias e riffs acelerados, ou o hard das imitações setentistas.

Ok, Voivod. No começo dos anos 1990, eles marcariam presença com algum experimentalismo na mesmice das distorções, não sem dividir a crítica. Já foi dito e redito o quanto headbangers são corporativistas. Qualquer outro tipo de música que queira se juntar ao heavy metal tem de fazer concessões. Poucos conseguem fazer amizade. Ainda mais se for o progressivo, nauseante para muita gente boa. E Voivod estava nessa, testando doideras e flertando com a psicodelia (a lista de subgêneros que eles arriscaram inclui o speed, o thrash e o cyberpunk). Atualmente quem toca com eles é o Jason Newsted, ex-baixista do Metallica.

Até que chego à idade adulta e atiro para todos os lados do rock, em busca da linha mestre. O próprio “The Dark Side Of The Moon” (1973), “Wish You Were Here” (1975), “Animals” (1977) e “The Wall” (1979) foram as escolhas mais óbvias. São os quatro álbuns de maior sucesso comercial dos nativos de Cambridge. O primeiro, “The Pipers at the Gates of Down”, continuava em minha agenda de temas descartáveis, agenda essa que anotava nomes como o do grupo de um homem só, Jethro Tull, maravilha que levei uns 15 anos para aprender a gostar – quem omite “Aqualung” e “Thick As a Brick” de sua lista definitiva merece apedrejamento sem misericórdia.

Para mim, “The Piper…” segue como um bom disco, nota oito. Mais que isso é apostar alto na mística que ficou no pós-morte de Barrett, jovem, bonito e talentoso estudante de arte (o que Roger Waters e Nick Manson também estudavam, enquanto o lance de Gilmour era cinema e fotografia) com fama de gregário e alegre, que gostava do existencialismo francês, do movimento beat e das religiões orientais. Ele emprestou a imagem ao Pink Floyd naquela segunda metade dos anos 1960, quando os ingleses encontararam o correlato britânico da chapação californiana de Ken Kesey na London Underground – turma mais intelectualizada que os americanos dos acid tests.

Foi em bares e galpões desse Underground (o termo destoa do conceito que conhecemos) que o Pink Floyd criou sua fama em shows que misturavam música, poesia, arte performática, maconha, haxixe e LSD, muito LSD. Na plateia via-se com frequência John Lennon, Paul McCartney, Mick Jagger, Pete Townshend, Marianne Faithfull e Yoko Ono. Se existia algo cool em Londres, entre 1965 e 1968, pode apostar que era onde os ícones da psicodelia estavam. Ninguém soube explorar luzes estroboscópicas, o silêncio da plateia, inéditas e modernas possibilidades de estúdios e a ânsia da juventude por novidades como eles.

No auge da psicodelia, com o Floyd no foco da cena, suas músicas tocando nas rádios e um álbum de estreia elogiado pela crítica e na vitrola da garotada, Barrett começou a implodir. A estampa de ator da Nouvelle Vague deu vez a de um lunático que vivia fora de si, pirado de ácido, em constantes crises violentas, na contramão dos colegas que buscavam profissionalismo – sobretudo Roger Waters. Precisamente em 1968, ele perdeu a razão. Uma esquizofrenia fora amplificada pela química devastadora. Convidado a sair da banda que era sua costela, internou-se em casa para sempre. Ou quase isso.

Os floyds ouviam um playback de “Shine On You Crazy Diamond” (tema composto por Waters para Barrett) numa tarde abafada do verão londrino de 1975, no instante em que um homem gordo e careca entrou no estúdio e fuçou os equipamentos. Waters congelou perplexo com a figura. “Sabe quem é esse cara?” perguntou para o tecladista Rick Wright, que negou. “É Syd”. Numa época em que era careta se meter na vida de alguém, ainda mais com conselhos ‘conservadores’, todos fingiram uma normalidade angustiante. Balbuciando em sua figura doentia, Barrett disse que poderia ajudá-los com algumas músicas que tinha escrito. Havia sete anos que não se viam. Décadas foram consumidas até aquela experiência mutiladora ser superada.

O que foi conseguido com temas compostos em homenagem ao amigo recluso numa doença perturbadora, prenunciada desde 1965 com fortes sinais de que iria vencer. Todos os supracitados álbuns exitosos do Floyd têm ligação com o peso na consciência que a saída do Cara deixou nos remanescentes – Roger Waters era amigo de adolescência, frequentou o círculo íntimo que acompanhava a primeira banda de Barrett, a Geoff Mott and The Mottoes; e David Gilmour, o substituto, foi responsável por bons toques de como tocar guitarra. A sensação de trairagem era geral.

Meu porém ao ouvir o disco do Voivod, lá por 1991, 1992, veio da versão da primeira música do primeiro disco do Floyd, “The Piper At The Gates Of Dawn”, o único gravado pelo então líder Syd Barrett. Sei disso hoje, naquela época Pink Floyd era um grupo de chatos que tinha um disco preto com um arco-íris geométrico que meu pai comprou num hipermercado perto de onde ficava a Pandang Folia, nas proximidades do atual Atacadão (tempos em que vendiam vinis em supermercado). A viagem de “The Dark Side Of The Moon” era meu parâmetro.

Na capa de “Nothingface”, do Voivod, tem um humanoide ligado a uma espécie de rede hidráulica, numa cena surreal. Com boa vontade, consegui ouvi-lo novamente esta semana, não escutá-lo. As notas estranhas de “Astronomy Domine” ainda estão lá. Aquelas que, em 1967, refogaram alho e cebola no caldeirão que muita banda de rock utilizou em seus pratos principais, Sepultura incluso. E que cerca de 20 anos atrás abriu uma lacuna em minha mente quanto ao verdadeiro valor do Pink Floyd – entendo os que ainda relutam em aceitá-lo, mesmo lamentando a falta de curiosidade por temas menos populares e a vida dos integrantes.

Portanto, a biografia de Syd Barrett lançada pela Sonora Editora (selo que entrou no mercado este ano para jogar títulos ligados ao mercado fonográfico e à paixão pela música em nossas gôndolas carentes) é daqueles livros que aguardamos por um longo tempo. “Crazy Diamond: Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd”, dos conterrâneos Mike Watkinson e Pete Anderson, é tida como a obra definitiva sobre o astro inconcluso e incompreendido. Via em livrarias virtuais, na versão inglesa, e me balançava para comprá-la. Sabia que perderia boas passagens, lendo em um idioma alheio. Minha defasagem acabou, agora que a história de um dos ídolos de um período fantástico chegou em português.

Compartilhar: