Vida Severina
O que se esperava de uma mulher nordestina nos anos 1920? Para elas, na vida pública, era vedado o voto e, por conseguinte, concorrer a cargos públicos. Em família, o papel reservado era o de parir o maior número de filhos possível e administrar a tríade pia-cama-tanque. Havia quatro décadas que os negros tinham sido libertados pela Lei Áurea. O Tenentismo estourava em todo o país, com jovens de baixa patente do Exército Brasileiro insatisfeitos com a situação política (a Coluna Prestes, auge do movimento, entrou no Rio Grande do Norte em 1926, durante o governo de José Augusto), sobretudo com o voto de cabresto tão popular por essas plagas. Entre tatus, urubus e mandacarus, sobrava pouco espaço para ‘modernices’.
Foi nesse contexto que Dona Severina Maria de Araújo nasceu. Natural de Brejo do Cruz, terra de Zé Ramalho que pertence ao enclave mítico da pistolagem na banda paraibana, ela nasceu em 30 de março de 1924. A lembrança da pequena infância chega em fragmentos de uma memória ativa. Sapiência e lucidez são características perceptíveis nos primeiros minutos de interação. Aos oito anos, chegou à Jucurutu sem os pais. Veio estudar e morar com uma irmã mais velha. Naquela época inexistia o conceito de adolescência. Com 16 anos, a menina estava pronta para o casamento. O alfaiate João Eusébio rondava a moça que iniciava na arte da costura, enquanto se animava na festa de São Sebastião, padroeiro da cidade distante 260 km de Natal. A paquera progrediu para a oficialização. E uma fileira de herdeiros começaria a ser organizada.
Em setembro de 1941, veio a primeira filha. No total, foram dezesseis partos, “mas quatro morreram por falta de médico. Tinha só rezadeira”, diz a mulher de 88 anos. Como Jucurutu tinha apenas o ensino básico, ‘Seu Zito’ levou Severina e as crias para Caicó. Foram dez anos no Seridó, onde, empolgada com a bandeira revolucionária empunhada por Aluízio Alves, travou contato com a política. “Eu trabalhei na campanha dele. Costurei uma farda para as mulheres irem uniformizadas aos comícios”. A padronização feminina começava pela vestimenta, desenhada para esconder qualquer pedaço do corpo que atraísse olhares desavergonhados. A quantidade de filhos apertava o orçamento, que, por vezes, era insuficiente para a ‘mistura’. “Nunca passamos fome, mas tinha dia que só comíamos arroz, feijão e ovo”.
Inflamada pelo clima contagiante de uma campanha eleitoral, Dona Severina e Seu Zito enfrentaram resistência em Jucurutu, cuja população era simpática a Dinarte Mariz. Mas o discurso inovador de Aluízio foi mais forte (tanto que patenteou a oligarquia potiguar mais influente da segunda metade do século 20). Na década de 1960, enquanto os Beatles invadiam a América, que invadiu o Sudeste Asiático, Caicó ficou para trás. O casal trouxe a prole para o Alecrim, precisamente para a rua Coronel Estevam. Ali montaram um pensionato misto, voltado para sertanejos como eles que acreditavam no progresso da capital. “Meu marido tinha amigos que conseguiram para ele um emprego na Guararapes. E assim começamos a melhorar de vida. Eu ficava no pensionato com as crianças”.
“Naquela época existia respeito. Quando alguém chamava o outro para fazer alguma coisa errada, ou que o povo achasse errado, como uma mulher ir sozinha numa festa tarde da noite, se dizia que era pecado. Mulher sempre foi discriminada, e antigamente então, sempre ficávamos por baixo”. Até que o dono do prédio onde estava lotado o pensionato acreditou em um boato de que perderia a posse, por ter alugado há mais de dez anos. Conversa para cá, negociação para lá, Dona Severina e Seu Zito rumaram para o novo conjunto criado na zona Norte. Em 1976, eles adquiriram uma casa no Panatis, então um longínquo e isolado aglomerado de moradias. No final daquela mesma década (1979), o novo destino de parte da classe média era Cidade Satélite – seu endereço atual.
“Tenho oito filhos homens e nenhum deu para safado. Tem mulherengo, mas safado não. Todos são de bem, assim como as mulheres”. Além dos 16 filhos gerados, um deles o ator e humorista João Maria Pinheiro (protagonista de comerciais da NatalCap), ela tem 35 netos e, até onde a lembrança e a matemática permitem, contabiliza 26 bisnetos. São 77 descendentes do mesmo ventre. Uma das filhas é a cardiologista Márcia Margarethe, que emite uma opinião emocionada acerca da mãe. “Ela é uma mulher simples, de origem humilde, mas de muita sabedoria. Para mim, sempre foi uma fortaleza incomparável, por ser alegre, extrovertida e trabalhadora. Ela sofreu muito, junto com meu pai, para criar uma família numerosa, sempre fazendo questão de que todos estudassem para ter um futuro melhor e uma vida com dignidade”.
Dona Severina sofre com artrose (doença degenerativa das articulações) nos dois joelhos. Caminha com a ajuda de um andador, após passar por três cirurgias para inserir próteses. Há cerca de cinco anos, uma queda rompeu o artefato da perna esquerda. Ela queria puxar um chinelo, que estava embaixo da cama, com a ponta dos dedos. A falta de equilíbrio custou a rótula e deixou como saldo “uma perna dura, que não dobra”. É seu único problema de saúde. Com irmãos que passaram dos 100 anos, a tradição familiar revela longevidade, ainda que dos 16 irmãos, tenham sobrevivido apenas dois – Seu Alcindo é um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial. “Da morte, eu só penso na do meu pai. Eu tinha nove anos. Isso foi em 1933. Teve uma epidemia de sarmpo no Estado. Ele pegou e não resistiu”.
Católica (vai à missa na igreja Nossa Senhora dos Impossíveis quando o joelho permite), fã de Nelson Gonçalves e atenta ao noticiário da tevê, Dona Severina Maria de Araújo é uma típica mulher nordestina. A “Bisa”, como é chamada por netos e agregados, teve na morte do marido a grande dor de sua vida (em 2008, aos 91 anos, com Mal de Parkinson). Consciente da resistência que manteve desde que saiu de Brejo do Cruz, ela abandonou a costura, mas não a vontade de seguir como matriarca nos próximos anos. “Quero que Deus me ajude a viver o resto do tempo em paz e consciente”.
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