A VINGANÇA DO VÉIO FULÊRO… – Bob Motta

É isso aí, minha gente! Inventei de inventá de abrir ais porta dais fulêrage do Bairro da Guarita de outrora;…

É isso aí, minha gente! Inventei de inventá de abrir ais porta dais fulêrage do Bairro da Guarita de outrora; e aí; meu fíi, agora danô-se e deu a bixiga; é fulêrage qui dá mode inchê uis cuntéine do Porto de Natá puruma porrada de tempo… E o Véio Fulêro “barreu da kenga”, mode o rôbo dais taínha!… Mais, a vingança surgiu puracauso! Clóvis tinha encomendado ao Véio Gino, qui a gente chamava de “BACAIÁU” (Dêsse tem estórias maravilhosas…); um “capão” para dar de presente à mamãe. Quem é “lá de nóis” e tem minha faixa etária, sabe peifeitamente do qui tô falando; mais prá essa turma jove de hoje, vô sê curto e grosso: Capão é um Galo Capado e adispôi de capado, “cevado” por mais ô meno uns sessenta dia… Pois bem! Um belo dia, chega o Véio Gino (Bacaiáu) cum uma caixa de papelão, tôda furada, cum o tá do “capão” dento. Clóvis recebeu a encomenda e dêxô na portaria do Véio Curtume, sob a guarda de Seu Manguêra, mixto de vigia e portêro, pois na época num inzistia a função de portêro; e o danado do capão, foi “mais recomendado do qui cabaço de virge”:

- Cumpade Manguêra (Clóvis era padrinho de um duis fíi de Seu Manguêra); dêxe levá até você, mas cuide para ninguém mexer nesse capão, que é para eu dar de presente à mamãe.

E se foi para a lida! Por arte do “mufino”, o Véio Fulêro vai passando na portaria, mêrmo na hora qui Seu Manguêra ía deixar o capão escondido num recanto. E, curioso qui só êle; perguntou:

- O qui é isso nessa caixa tôda furada ? Prá qui tanto coidado ?

E o pobre do Seu Manguêra, inocentemente:

- Hôme; nem quêra sabê; isso é um capão qui cumpade Cróvi comprô, mode dá de presente a Dona Severina; tá mais recumendado do qui tudo nêsse mundo…

O Véio isperô prá vê onde a caixa foi guardada e saiu cum seu ar de riso mais sévéigonho dêsse mundão sem purtêra… Junto do birô da portaria, estava um tambô de 200 litros , com uis apetrêcho dais pescaria; linhas, tarrafa e um mangote bem grande… De cunclúio cum o Véio, Chióla de Seu Lica, chegou na portaria e disse a Seu Manguêra qui meu pai tava lhe chamando na calçada… E, enquanto o pobre do Seu Manguêra foi atendê ao “chamado de papai”; o véio pegou a caixa cum o capão dento e butô no fundo do tambô, cobrindo tudo com a tralha de pesca; e saiu tranquilamente com o tambor nas costas, pois estava acostumado a fazer isso… Quando Clóvis foi procurar a caixa com o capão, era o canto mais liiiimmmpo! O pobre do vigia/porteiro levou a culpa tôôôda! Nisso, vem chegando o véio fulêro, vindo lá da banda da maré; e com a cara mais dirlavada, perguntou:

- Alguém sabe me dizê o qui danado tá acontecendo puraqui ?

Quando lhe contaram o fato, êle fazendo cara de espanto, disse: – Num me vangulorêio cum cum a disgraça alheia não; mais isso é prá você, Clóvis; aprendê a respeitá uis tróço duis zôto…

O dia seguinte era um sábado e o curtume só trabalhava até às dez horas da manhã… Após o expediente, foram beber cachaça em Pêdo Galo ; e Dona Dica começou a trazer cada prato de tira gôsto, do tamãe d’um bonde; dizendo que era frango; já tudo combinado cum a “mundiça”! E Clóvis, achando muito grande uis pedaço do “frango”; falou:

- Êsse bicho tá tão gostôso; mas tá tão parecido com o capão que eu comprei prá mamãe?!…

Minino; o Véio Fulêro se ingasgô cum “uma réiada de cana” qui ía bebendo e começou a tossir; enquanto a Budega de Pêdo Galo, quage vinha abaixo cum a gaitada duis bêbo… E o Véio Fulêro; c’á sua “bôca mole”:

- Tá vendo, dotô ? Quem tem cum qui me pague; num me deve é naaaada!…

E Clóvis acabô surrindo tombém!…

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