Violência, a grande chaga do ser humano – João Medeiros Filho, padre e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (pe.medeiros@hotmail.com)

Há milênios, a humanidade vive oprimida pela violência. Ela está sempre rondando e desrespeitando a dignidade dos seres humanos ou…

Há milênios, a humanidade vive oprimida pela violência. Ela está sempre rondando e desrespeitando a dignidade dos seres humanos ou das realidades sagradas. Inegavelmente, verificamos sua presença no mundo desde as suas origens. Encontra-se simbolizada no primeiro livro da Bíblia, na narrativa do homicídio de Abel por Caim (Gn 4, 8). No primórdio de todos os primórdios, o homem pretendia revestir-se da condição divina: “sereis como deuses” (Gn 3, 5). Aspirava estar acima do bem e do mal, constituindo-se em senhor absoluto do próprio destino e legislador, segundo sua vontade e caprichos. Deus não é assim, mas Amor que se doa. Dele não nos apoderamos por um ato de conquista ou força. Podemos, sim, acolhê-lo como filhos, reconhecidos e agradecidos.

A violência penetra no mundo e em nossas vidas, quando ignoramos Deus ou não somos capazes de reconhecê-lo como Pai amoroso e temos uma visão distorcida, comparando-o a um manipulador ou déspota. O Livro do Gênesis narra a insinuação maldosa da serpente, símbolo do ódio, do ressentimento e da inveja: “Mas, a serpente respondeu à mulher: de modo algum morrereis. Pelo contrário, Deus sabe que, no dia em que comerdes dos frutos da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 4s.). Desta forma, o homem busca apropriar-se da prerrogativa divina de ser o caminho da vida. Freud tenta explicar essa condição de ódio ao pai com o mito de um parricídio nas origens. Pensou assim em substituir a narrativa bíblica do pecado original. Para ele, a luta pelo poder entre os irmãos torna-se inevitável com a morte do pai. A convivência humana, segundo essa teoria, passa a ser uma guerra permanente, em que cada um procura impor aos outros sua vontade. O próximo vira concorrente e deverá ser eliminado. Para os índios kadiwéus, quem não sabe ser filho, não sabe também ser irmão. Quando se desacredita do pai, como crer naqueles que dele descendem? Se ignorarmos ou rejeitarmos Deus, como haveremos de aceitar os seus filhos? O outro se constitui em inimigo e objeto de conspiração.

Mas, nem tudo está perdido. Há um caminho de volta, por mais que estejamos dispersos. Houve alguém, ser humano como nós, que foi plenamente filho: Cristo. Este estava totalmente tomado pela filiação divina, plenamente identificado com o Pai, revelação de seu amor, que não desistiu do objetivo de envolver em seu infinito afeto a humanidade inteira. A Carta aos Hebreus coloca nos lábios de Jesus estas palavras: “Eis-me aqui, eu vim, ó Deus, para fazer tua vontade” (Hb 10,8). No evangelho de João, declara: “Meu alimento é fazer a vontade Daquele que me enviou” (Jo 4, 34). Cristo tinha consciência de que Deus é puro amor para toda a humanidade. Sua missão é restaurar no coração dos irmãos a confiança no Pai, refazer neles a imagem do Criador, desfigurada pelo ódio e pela desobediência. Jesus é nosso irmão, amando-nos até a morte de cruz e se dando a nós no banquete da eucaristia.

Desta forma, o caminho contra a violência é reconhecer Deus como Pai e reintroduzir no mundo a dinâmica do amor, afastando a concorrência e a luta pelo poder. É claro que medidas eficazes de segurança se fazem urgentes e indispensáveis para conter a onda de violência – oriunda de problemas sociais, econômicos, psíquicos e até religiosos – que assusta a todos e ceifa vidas inocentes. Há unanimidade, quando se afirma que é preciso empenhar-se para não ceder à violência. No entanto, para que suas raízes feneçam, precisamos retornar às fontes cristalinas do amor, que estão em Deus. Gandhi, inspirado na tradição hinduísta e no Evangelho, também ensinava: “Violência, nem em pensamento. Deus não é assim e somos seus filhos”. Aquele que, como Francisco de Assis, consegue retirar do próprio coração todo sentimento de destruição, estará contribuindo generosamente para diminuir a violência do mundo!

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