“A Visita Cruel do Tempo” mostra ascensão e queda de jovens sonhadores

Obra foi vencedora do Pulitzer 2011 de Melhor Ficção

Conr1

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Logo na capa de “A Visita Cruel do Tempo”, uma frase extraída de uma crítica do jornal Los Angeles Times turbina a expectativa de quem está prestes a lê-lo, ainda sob efeito do barulho que causou desde seu lançamento no Brasil – principalmente após levar o Pulitzer e o National Book Critics Circle como melhor ficção de 2011.

“O melhor livro que você terá em mãos”, diz a sentença do periódico californiano, para incentivo e desconfiança do leitor. No complemento do coquetel de honrarias estimulantes, Jennifer Egan, a autora, foi eleita pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo – o que talvez não queira dizer muita coisa.

Superado o oba-oba, vamos às comparações – sempre o contrário preguiçoso do raciocínio. Muito tem se falado do apuro técnico de Egan – o que se justifica, diante da facilidade com que alterna vozes entre passado, presente e futuro, para criar um mosaico biográfico de uma dúzia de personagens.

O núcleo da narrativa é composto por uma cleptomaníaca, Sasha, assessora de um figurão da indústria fonográfica (Bennie) – ele mesmo um fracassado ex-baixista de uma banda punk, na virada dos anos 1970/1980, que enfrentou a derrocada de sua geração tornando-se um conservador esnobe de subúrbio.

À época, o grupo era empresariado por Lou, cheirador de cocaína e aliciador de menores, que exemplifica o papel de cafetão no universo musical no auge do rock and roll. Na guitarra e nos vocais, Scotty era o modelo de pop star – bonito, carismático e sonhador. Mas a mendicância do galã nas ruas da Big Apple foi o resultado da era dos excessos.

Outras figuras surgirão, como as groupies Jocelyn e Rhea; a esposa de Bennie, Stephanie; Dolly (ou La Doll), a jornalista malhada no mercado após organizar uma festa para a elite com desfecho trágico que, agora, faz assessoria de um ditador sanguinário de um país subdesenvolvido qualquer.

É a partir da trajetória dessas pessoas, da lisérgica São Francisco dos 70s à pragmática e cibernética Nova York de 2020, que “A Visita Cruel do Tempo” aborda assuntos corriqueiros, porém indispensáveis, como solidão, envelhecimento, escolhas erradas na juventude, amizades perigosas, a química como terapia ou fuga espiritual.

Especializada em música, Jennifer Egan insere esta arte nos bastidores da trama, com alusões a diversos ícones, sobretudo punks – Iggy Pop, Dead Kennedy’s. Como faixas de um álbum clássico, os capítulos de “A Visita…” podem ser degustados independentemente, mas formam um todo coeso, triste, mas vibrante.

 

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