“Visualizando Citações”
X-men, Asterix, Mônica, Batman, Cebolinha, Elektra, Frajola, Haroldo… Quem nunca pelo menos uma vez na vida não acompanhou as aventuras de alguns desses personagens das histórias em quadrinhos? Com suas diversas possibilidades de criação de imagens, traços e ideias é que as HQs vêm conquistando cada vez mais espaço entre os leitores brasileiros.
A história não é diferente aqui em Natal. Os número de amantes desta arte versátil que reúne desde temas considerado puro entretenimento, como também, críticas de costumes, crônica de experiências pessoais, humor irreverente, entre outros, cresce a cada dia que passa.
O universo das HQs é tão rico que as novas gerações de artistas começam a incorporar outras referências e experimentar linguagens. Como é o caso da historiadora, escritora, roteirista e especialista em história em quadrinhos Milena Azevedo que criou o projeto “Visualizando Citações” que tem como proposta de tomar citações de livros como mote para uma história diferente do contexto original proposto pelos autores, em quadrinhos de uma a três páginas, em preto-e-branco.
“Sempre que leio algum livro, tenho o costume de anotar algumas passagens que achei relevante, pode ser uma sentença, um diálogo, um parágrafo. Essas anotações são feitas em minhas agendas. E como eu “colecionei” uma quantidade considerável de citações, pensei que podia aproveitá-las de alguma forma inovadora”, destaca Milena.
Em entrevista para O JORNAL DE HOJE, a historiadora, escritora e especialista em história Milena Azevedo contou um pouco da sua trajetória, experiências, projetos e vitórias. Vale à pena, conferir!
O JORNAL DE HOJE – Você lembra qual foi a primeira revista que você leu que despertou essa paixão por HQs?
Milena Azevedo – Meus pais me falaram que por volta dos dois anos de idade eu já gostava de andar com uma revistinha na mão. Não rasgava e até desvirava quando eles me davam de cabeça pra baixo. Bom, mas o quadrinho que mexeu comigo e me fez começar a colecionar pra valer foi ‘X-men – o conflito de uma raça’ (escrito por Chris Claremont e desenhado por Brent Anderson), primeira graphic novel publicada pela editora Abril, em 1988.
O JORNAL DE HOJE – Quando você percebeu que os quadrinhos são muito mais do que entretenimento?
Milena Azevedo – Acho que foi quando eu li essa graphic novel dos X-men, mesmo com apenas 11 anos de idade. Havia dois pontos de vista muito bem desenvolvidos e críveis. Se por um lado Xavier defendia que mutantes e humanos poderiam conviver pacificamente caso os humanos entendessem que a “anormalidade” dos mutantes não era motivo para temê-los; por outro, Magneto tinha toda uma história de tragédia familiar (seus pais eram judeus e acabaram morrendo num campo de concentração alemão), e pregava que os mutantes, por serem superiores, deveriam se voltar contra os humanos e exterminá-los.
Eu comecei a ver que mesmo nos quadrinhos de super-heróis havia discussões interessantes sobre temas atuais. Até os quadrinhos da Disney expressavam a superioridade dos norte-americanos frente aos povos do terceiro mundo, como nas aventuras em que Mickey atua como detetive e sempre desvenda um mistério e acha um tesouro bem embaixo do nariz de povos bobinhos, bonachões, infantilizados.
E durante a faculdade de Histó ria, iniciei pesquisas e apurei minha visão pra saber ler nas entrelinhas.
O JORNAL DE HOJE – Na sua opinião, qual a importância de uma HQ?
Milena Azevedo – Em primeiro lugar, é uma leitura que mexe com os dois lados do cérebro, pois precisamos decodificar imagens e textos, intercalando-os para apreender toda a mensagem que está sendo passada.
Também o leitor de quadrinhos tem a oportunidade de ser co-autor das tramas que lê. É o leitor quem complementa, em seu cérebro, as elipses espaço-temporais que se encontram entre os requadros, naqueles espaços em branco, chamados de calha ou sarjeta. Por isso que no quadrinho, diferente do cinema, roteirista e desenhista não precisam mostrar a ação acontecendo passo-a-passo até a sua conclusão.
O JORNAL DE HOJE – Fale um pouco sobre a Garagem Hermética Quadrinhos. Como surgiu a idéia de abrir uma loja de quadrinhos?
Milena Azevedo – A ideia de montar a GHQ surgiu do meu amor pelos quadrinhos e por saber que muitos dos amigos que colecionavam sentiam falta de um local onde eles pudessem ser tratados de forma normal, além de poder comprar, no mesmo mês de lançamento, os quadrinhos com distribuição setorizada (que primeiro chegam em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, e só após serem recolhidos é que aparecem pelo Nordeste).
Eu me afiliei ao HQ Club e trouxe a Natal, pela primeira vez, títulos como 100 Balas e exemplares autografados por mestres como Rodolfo Zalla e Ivo Milazzo. Também consegui livros autografados, como Homens do Amanhã, do Gerard Jones, e títulos com brindes, como o kit graphic novel + camiseta de Modotti. Fiz parceria com a Moviecom, e os clientes ganhavam ingressos pra ver qualquer filme, em qualquer horário, inclusive nos finais de semana. E criei eventos, como o Cine GHQ e os momentos de venda e troca de quadrinhos entre os clientes.
A GHQ não era uma banca, como infelizmente muitos achavam, por desconhecer o conceito de comic shop (livraria especializada em quadrinhos e memorabilia). Apesar de ser uma comic shop, a GHQ também funcionava como ponto de encontro dos artistas locais e divulgação dos trabalhos dos mesmos. Fico feliz que muitos voltaram a produzir depois que eu abri a loja.
O JORNAL DE HOJE – Na época que você fechou a loja você publicou uma carta-aberta neste periódico, onde fez a seguinte afirmação: Porque cultura aqui no Rio Grande do Norte é difícil. Manter um negócio assim é difícil. A pessoa faz porque gosta. Retorno financeiro não tem”. Hoje em dia você continua pensando assim?
Milena Azevedo – Continuo pensando da mesma forma. Eu não me aventurei ao abrir a GHQ. Eu estudei muito antes. Fiz cursos no SEBRAE, pesquisei, visitei outras comic shops para montar um plano de negócio bem estruturado e dentro do que eu podia investir. Todo o capital que entrava era reinvestido na loja, pois a cada quinze dias eu precisava comprar quadrinhos e, claro, tinha que pagar pelos que haviam sido vendidos em forma de consignação ao final de cada mês.
Eu não podia mexer no capital de giro, e ficar recebendo pró-labore apenas em forma de quadrinhos era legal, mas depois de três anos ficou complicado. Um negócio precisa gerar lucros para se manter. Se tudo o que entrava só dava para pagar contas e fazer novas compras, é claro que eu precisava fazer algumas escolhas para continuar na ativa. Mas no final a concorrência direta da internet (muitas vezes com frete grátis) falou mais alto aos clientes.
Outro ponto. Natal é uma cidade pequena e não comporta mais de uma comic shop vendendo o mesmo material. Em cidades grandes como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e BH uma comic shop basta para atender ao público, pois as livrarias também passaram a vender quadrinhos, além das lojas virtuais, como Banca 2000 e Liga HQ, por exemplo, que oferecem bons descontos e em algumas ocasiões até frete grátis.
A GHQ não era um hobby pra mim. Era um negócio. Eu não ganhava para estar lá. Eu ganhava quando os clientes compravam.
Se em uma empresa, por questão de orçamento reduzido, você precisa assumir todas as funções (gerência, estoque, balcão, caixa, vendedor, limpeza) o desgaste é grande. Eu aprendi muito, não vou negar, mas quando você percebe que se dá demais e o retorno é muito pouco, bate um desânimo.
Na mesma época em que eu já cogitava fechar as portas e ficar atendendo apenas como loja virtual, a Limbo e a Velvet passavam por uma situação similar. Tanto que ambas encerraram as atividades antes da GHQ. Eu fui até onde realmente deu.
Eu sinto falta do balcão, sinto falta de fazer as negociações com as editoras, mas infelizmente Natal me mostrou que é uma cidade que não sabe abraçar empreendimentos culturais bacanas.
O JORNAL DE HOJE – Qual o perfil do leitor de quadrinhos?
Milena Azevedo – Eu costumo dividir os leitores de quadrinhos em três grandes segmentos: Adolescentes que compram exclusivamente mangás; universitários e profissionais liberais, entre os 18 e os 40 anos, que têm títulos e heróis preferidos, mas são abertos a autores novos e quadrinho nacional; colecionadores tradicionais, com faixa etária entre 45 e 70 anos, que procuram os quadrinhos que liam na infância e podem pagar um preço mais alto por edições encadernadas com acabamento refinado.
O JORNAL DE HOJE – Você acredita que aqui em Natal o público leitor de quadrinho está crescendo?
Milena Azevedo – Sinceramente, não sei responder.
O JORNAL DE HOJE – O preconceito hoje ainda é grande. Muita gente tem vergonha de reconhecer que gosta de quadrinhos? Por quê?
Milena Azevedo – Sim, o preconceito ainda existe. E pior, muitas vezes o preconceito externo é tão forte que as pessoas acabam se auto-censurando por gostar de ler HQs. Tenho relatos de alguns clientes que me disseram se sentir à vontade por saber que na idade deles outras pessoas compravam quadrinhos. E assim meio que compravam sem culpa.
O problema é que se rotulou, principalmente no Brasil, que apenas crianças do sexo masculino consumiam quadrinhos. Eu sofri preconceito ao comprar alguns quadrinhos em bancas daqui de Natal. Geralmente me perguntavam se era para um irmão, um namorado. Quando eu respondia que era pra mim, me davam um olhar torto.
Claro que todo e qualquer preconceito é fruto da ignorância. O universo da arte sequencial é vastíssimo. Há quadrinhos para todos os gostos e bolsos. Porém, em geral, as pessoas relacionam quadrinho apenas a dois gêneros (super-herói ou “Turma da Mônica”) e acham que todos são iguais. Nisso eu incluo o mangá, que muitos, por ignorância, nem querem dizer que são quadrinhos (e eles o são, quadrinhos japoneses), e acreditam que todos os personagens são crianças fofinhas e alienadas, por isso destinados apenas para crianças.
O JORNAL DE HOJE – Agora, fale um pouco sobre o “Visualizando Citações”?
Milena Azevedo – Sempre que leio algum livro, tenho o costume de anotar algumas passagens que achei relevante, pode ser uma sentença, um diálogo, um parágrafo. Essas anotações são feitas em minhas agendas. E como eu “colecionei” uma quantidade considerável de citações, pensei que podia aproveitá-las de alguma forma inovadora. Então, a ideia para o projeto Visualizando Citações foi nascendo em meados de 2011, até que amadureci a proposta de tomar cada citação como mote para uma história diferente do contexto original proposto pelos autores, em quadrinhos de uma a três páginas, em preto-e-branco. Escrevi os vinte roteiros entre julho de 2011 e janeiro de 2012 e fui convidando os desenhistas de várias partes do Brasil (Natal, Fortaleza, Salvador, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paranaguá e até um angolano residente em Lisboa). Mesclei profissionais experientes com alguns em início de carreira e o resultado ficou muito bom. Publicamos quatro edições em 2012, e muitos estão me pedindo uma versão impressa. Em 2013 daremos continuidade ao VC, mas vou ver como serão postadas essas novas histórias.
O JORNAL DE HOJE – E, para concluir essa entrevista quais são seus planos para 2013?
Milena Azevedo – Plantei algumas sementes, em 2012, que irão germinar em 2013. O Visualizando Citações, por exemplo, deve ganhar uma edição impressa. Uma HQ de 24 páginas que fiz em parceria com Brum, chamada O salva-vidas, também vai ser impressa (já ganhamos o prefácio do Spacca). E o grande projeto mesmo é a Força Verde, que em inglês vai se chamar The Green Team, e já tem o aval da atriz e ativista ecológica Daryl Hannah. Também quero ver se levo adiante uma série de cotidiano urbano, chamada Loquazes, que já escrevi o roteiro das cinco primeiras histórias, e uma graphic novel de ficção científica noir (com flertes no steampunk), que apenas escrevi o argumento. Sem falar na graphic novel do Juscelino Neco, que estou letrerando, e deverá agradar aos fãs do Daniel Clowes.


