VIVA A POESIA POTIGUAR!
VIVA A POESIA POTIGUAR! O JORNAL DE HOJE celebra a literatura poética do Rio Grande do Norte. E, brinda os leitores com um mural de poesias. Confira!
O BEIJA-FLOR
Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a pátria da ambrosia.
Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!
Um dia foi-se e não voltou… Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…
Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!
Auta de Souza (1876-1901)
Celebração
Neste novo dia
Vamos celebrar a terra,
Nosso lar, somos humanos.
Vamos celebrar o ar
Que respiramos, a brisa dos elíseos.
Vamos celebrar o fogo,
A chama que nos aquece e ilumina.
Vamos celebrar a água
De que somos feitos, o ritmo da água, o rio, o mar.
Vamos celebrar a poesia,
O poeta é irmão do simples, da magia.
Vamos celebrar a vitória,
Sem ela o mundo seria sem glória.
Vamos celebrar a derrota
Porque a ela sempre abrimos a porta.
Vamos celebrar a amizade
Que nos confere intimidade.
Vamos celebrar o mistério que nos cerca.
Vamos celebrar o amor, esse mistério,
E o mistério maior
Que é a vida.
Diógenes da Cunha Lima
A Cadeira
(A Moça Sentada)
O alto corpo se curva,
Quebram-se as linhas
E partidas formas lentas
Se debruçam.
Do vivo traço que era
De pé, como haste erguido
Em três planos se dispersa.
Vivos olhos, agudamente,
Percorrem a sala sem lume.
Dois seios pulsam, solenes.
As mãos uma flor seguram
Suspensa sobre o regaço
E o sexo e a flor se ocultam
No sem espaço da curva.
Pernas suspendem ligeiras
Os pés, e as alpercatas
Caem no vazio onde foram
Sólidas raízes do corpo
Que a cadeira despedaça.
E na sombra,
Sem movimento,
Todo o corpo adormecido
Sobre o corpo da cadeira
Mulher de amor ausente
Talha na sombra envolvente
Vivo relevo de carne
Inútil sobre a madeira.
Newton Navarro (Março - 1953)
POSSÍVEL NO IMPOSSÍVEL
(Para Eduardo Gosson)
Vivo no passado, julgado perdido.
Nas asas do Pégaso levada a legião do sonho;
No futuro, que nem imaginava alcançar,
Em pleno presente esperado ser fugido…
Não posso mergulhar nos poemas;
Sou prosadora, gosto de livros longos;
De poeta, amei Bilac, Bonfim e Palmira.
Entre os gêneros, opto smpre pela prosa.
Amo também o canto, a dança, música enfim;
O que me encanta mais é frase lapidada,
Em oração sintética e simbólica
Final sonoro de biografia autêntica.
Mas hoje, Eduardo,
No seu retorno as raízes,
Lembro-me das minhas: Freire de Sevilha,
Viana do Castelo, Fernandes Pimenta e Raposo da Câmara,
Que vem de Campo Grande, Macaíba, desaguandao em Natal.
Eaproveitei a carona de São Jorge,
E vim num raio de luar, trazendo cavalo branco,
Lança e dragão para aprova-lo.
Possuo a maldição das afeições eternas,
E não posso esconder o que é seu.
Dedico-lhe afeto, admiração,
Sincera e desinteressada.
Anna Maria Cascudo Barreto
Beijos
As vezes, penso comigo
Que há beijos de toda cor;
Beijos que trazem consigo
Mil prisma, como o amor.
Assim, o beijo de Judas
Tem a cor da escuridão:
Guarda o horror das trevas mudas
E a negrura do carvão.
É negro, bem como a sombra
É traiçoeira na alfombra.
Parte um noivo, que enlouquece
Beijando a noiva, com pejo …
Não sei porque, mas parece
Que é tão azul este beijo !
É azul porque a saudade
Tem a cor da imensidade !
Na liça, o guerreiro bravo
Vê cair o irmão exangue:
Beija-o e foge, que é escravo …
Mas leva nos lábios sangue …
Dado embora de joelho,
Aquele beijo é vermelho.
Quando afago a minha filha
E cinjo-a de encontro aos flancos,
Seu rosto como que brilha …
Os beijos de mãe são brancos.
São brancos, bem como a lua
É alva, quando flutua …
Henrique Castriciano
De passagem
Vivo como quem está de passagem
Jogando coisas fora
Dando minha vez ao outro
Disfarço a sujeira com as luzes apagadas
Apresso quem sabe ficar
Livrando os cômodos do gosto
Prometo que se for os males irão também embora
Despeço-me do que não construí
Crio histórias numa vida posta
Moro a caminho de um canto perdido
Um favor, um desperdício
Longe de estar dentro de mim ou fora
Leticia Torres
Barcarola
Não te recordas, querida,
Da noite em que nos amamos,
Sob a frescura dos ramos
Da laranjeira florida?
Gemia a viola na aldeia,
A brisa um hino entoava
E a luz da lua inundava
A terra, de rosas cheia!
Lá na planície da serra,
junho alourava as espigas,
vinham de longe as. cantigas
das moças de minha terra,
quando te vi, linda flor,
e da nolte à doce calma,
derramaste na minha alma
o efluvio do teu calor!
Saudade! quanta saudade
da noite em que, ao céu sereno,
tu me abriste o seio, pleno
de aroma e de mocidade!
A’ sombra da laranjeira,
por ti, visão da alegria,
do meu beijo a cotovia
cantou, pela vez primeira!
Tu esqueceste os ditosos
domingos embalsamados,
e os cantos apaixonados
dos jangadeiros saudosos
que, ao céu transparente e azul,
do estio nas tardes belas,
passavam, molhando as velas
abertas ao vento sul!
Tudo esqueceste, e mais nada
resta em tua alma enganosa,
dessa paixão desditosa,
dessa ilusão desfolhada,
que lembro todos os dias,
pensativo, a cada instante,
Ó lavandisca inconstante
das areias alvadias!
Talvez que esta alma não possa
acreditar, nunca mais,
nos teus beijos aromais,
nos teus sorrisos de moça!
Ai, meu doce malmequer,
que me deixaste em janeiro,
- como tudo é passageiro
no coração da mulher!
Ferreira de Itajubá
Amarílis
A jovem estava
à beira da estrada,
entre o perfume dos milharais
e a cidade distante.
Eu a li, fixei os olhos
sobre sua inerte horizontalidade.
O rosto quase limpo,
cheirando a lírio,
e o corpo passeado por formigas,
participantes do desfazer de sonhos.
Um veículo, voando no asfalto,
esmigalhou as asas
de uma mariposa
que mal havia saído
de sua fugaz infância.
Os olhos semicerrados
deixaram-me imaginar
quantas ausências aquelas janelas
construíam com o silêncio
do seu mundo.
Dois anos mais tarde,
passei pela mesma estrada.
Os milharais ainda mais perfumados.
Por circunstâncias desconhecidas
ou coisas do mistério,
causou-me estranheza descobrir
que açucenas brotavam
entre ossos no relento.
A doce Amarílis
não teve direito a enterro,
mas prateou-se
cada vez que o luar
velava aquele templo
absorvido pela terra,
mãe serena de saudade.
Talvez nem soubesse
o que era literatura,
mas escreveu
com argila e pétala
a poesia que a roda do mundo
esqueceu.
Alexandre Abrantes
A HORA RASA
Não há mais onde abrigar-se
o quarto é um símbolo mudo
e a calmaria
sinal de perigo
os odres estão vazios
e muita cautela é preciso ao pisar
as nuvens de silêncios inflamáveis
outrora havia rumor de tambores
que anunciavam a chuva
mas os ventiladores pararam
o quarto está despido
sem sombras e sem luz
sem qualquer movimento de espera
exceto a expectativa
de que uma porta se abra
e retorne em triunfo
a exterioridade dos ruídos
Horácio Paiva
DO AMOR QUE FICA
Fale-me desse amor que fica
No perfume da rosa que te dei
E desfolhaste na madrugada insone.
Preciso saber desse amor imenso, lento, chegando
Para ficar um dia, preso entre nós dois,
Concha do mar, luar de abril,Brisa que o vento agride.
Fale-me dessa rosa que fica
Num jarro de vidro azul esmaecido,
Onde ela se destaca e adormece,
Amanhecendo em suor de luz.
Fale-me desse amor que ficaNa doçura de um cansaço de esperas,
Na luminosidade de um dia festejado de sol,
Na hora íntima, de juntarmos nossos corpos…
E mãos!
Preciso desse sorriso seu – amoroso,
Da translúcida hora da afeição e do orgasmo
De uma flor, presa ao galho,
E se desprendendo, parindo sozinha…
Fale-me do amor que fica – eterno,
Lindo e lírico, cheio de noites e madrugadas,
O amor que nada pede, recebe
E se dá!
Lúcia Helena Pereira
As mulheres que quero
Não quero mulheres em preto-e-branco,
nem em cinza.
Quero mulheres a cores,
mulheres com o brilho
das manhãs de sol
de Tabatinga
ou de Honolulu.
Mulheres que deitam
e dormem, de repente,
não se doam,
doem-se,
doença do tédio.
Quero as mulheres verdes,
mulheres cor-de-rosa,
mulheres azuis,
como o céu do sertão
do Cauaçu.
Quero a mulher que vibra,
a mulher com tremores,
a mulher sem pudores,
a mulher que me crava os dentes,
aquela que parte suas unhas
nas minhas costas.
Quero a mulher vital,
a fatal também,
mas mulher de tentos
e de tetas suculentas.
Quero a mulher-mistério,
a mulher que ri,
mas que guarda sempre
um ar de interrogação
e um segredo de mim.
Não aceito as mulheres
que não seduzem,
mulheres sem glamour,
mulheres sem fantasias,
mulheres sem música,
sem poesia,
sem uma gula impudica
que contamine
de desejo
todo ser amante.
Quero as mulheres
que não sejam só cérebro,
mas coxas entreabertas,
seios em órbita,
lábios em rosa,
coração explodindo,
champagne que explode
sobre seu corpo
e o meu.
Quero mulheres,
urgentemente as quero,
aquelas que me ninem,
como no primeiro dia,
que afaguem os meus cabelos,
que me façam dormir,
que me deem o seu leite,
que me derramem seu vinho,
alimentando-me, loucamente,
de paixão.
Quero mulheres de sangue,
mulheres de luta,
mulheres que gritem
e façam irromper, no ar,
a força do seus sonhos,
dos seus vícios,
desejos, todos.
Quero as mulheres
que amem as artes,
mulheres supérfluas,
mulheres manhosas,
como gatas no cio.
Quero as mulheres
vivas,
loucas,
apaixonadas,
prontas para o escândalo
do amor.
(Lívio Oliveira)


