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Viva o mistério!

Data: 01 março 2013 - Hora: 18:00 - Por: Vicente Serejo

Poucas coisas nesta Aldeia Velha são tão instigantes quanto a ciência política do deputado João Maia. Maior, talvez, só a magia Pedra da Bicuda desde quando as águas do Potengi foram pelos ares na explosão que o ministro dos transportes, Mário Andreazza, viu de binóculo e sentado no paredão da Fortaleza dos Reis Magos. Foi também ali, no sopé da estrela de pedra e cal, que um dia o historiador Marcos Maranhão, armado de sonhos, pás e picaretas, cavou um buraco a procura das lajes-mores.

E não se diga Senhor Redator, por injusto que seria, que não tentei entender sua generosidade com todos os governos. Foi assim quando do altruísmo dos pemedebistas, os nossos pefelistas eram democratas, o wilmismo transpirava socialismo e, agora, mais recentemente, quando a governadora Rosalba Ciarlini assomou a rampa gloriosa da governadoria. Sua vigilância, francamente, tem sido comovente, para não dizer comovedora, numa saga comparável aos nossos índios na guerra do caju.

Agora mesmo saltou da sua fofa poltrona governista e sem cobrar a derrota que sofreu na busca de indicar o representante da OAB na vaga do quinto constitucional, brandiu sua espanta republicana, como fez Duque de Caxias, e desautorizou a palavra de Vivaldo Costa. É verdade que os papas não andam com sorte em matéria de fidelidade de suas cúrias, nem também foi de heroísmo o arroubo do senhor das terras da Bonita, no sertão do Seridó, para ouvir o brado retumbante do deputado Maia.

Ora, Senhor Redator, nada é mais legítimo do que o gesto de defesa de Vivaldo Costa que pode até nem ter uma alma tão republicana assim como sugere a sigla do seu partido, mas nele tem sido uma tradição. Imagine – se é possível a imaginação alcançar tão longínquas paragens – o Papa do Seridó a favor de um PMDB que ele já sabia naquela hora, até por inspiração de Santana, com a força de dez leões cobrando cargos para saciar sua fome sob o escudo do amor ao futuro do Rio Grande do Norte?

Claro, o papa falou. E na sua visão cósmica da política não precisará reafirmar a palavra com ou sem a unção do deputado João Maia. No mesmo dia estava neste indômito JH que o partido do deputado Henrique Alves e do senador Garibaldi Filho nada mais deseja para saciar a sua fome do que as secretarias de recursos hídricos e da agricultura, e o programa do leite, este sem nenhuma alusão às tetas, talvez para fazê-lo mais eficiente e menos perdulário no bem coletivo que deseja promover.

Tenho impressão, Senhor Redator, que sequer temos sido justos com nosso próprio altruísmo. Não valorizamos nosso desprendimento, subjugamos com ilações as mais perversas a nossa altivez e amarrotamos o retrato fiel da nossa alma coletiva. Um povo de mais de quatro séculos não pode viver sem mistério. Como a Pedra da Bicuda ou a ciência política do deputado João Maia. Seria cair no beco escuro da melancolia com uma vida sem graça que acabaria matando de mesmice nossa pobre gente.

RISCO – I
Depois de acertar na mosca ao admitir sua candidatura a governador ou senador, fechando em torno do seu nome o jogo da sucessão pelo peso do PDM, Henrique Alves trocou pela partilha de mais cargos.

EFEITO – II
O acordão, sob o protocolo de intenções do senador José Agripino, manterá a presença do PMDB até dezembro, mas cobrará dos pemedebistas o oportunismo de só romper às vésperas do fim do governo.

PIOR – III
Se nesse mesmo período o governo se recuperar com seus quase dois bilhões de reais já provados em empréstimos o PMDB terá criado um grande adversário e ficado refém do seu vício de apenas um vice.

PREÇO – IV
Como aliado ao longo de três anos o PMDB responderá na tevê pelo desgaste diante do funcionalismo que não vai se dissipar com dinheiro no caixa e a presença de mais dois ou três secretários no governo.

ALIÁS – V
Mesmo dono de uma estrutura nada desprezível, o PMDB nem assim deveria subestimar tanto assim a luta se, do outro lado, estiver o resultado a união dos aliados dilmistas: PT, PDT, PSB e PSD. Anotem.

HUMOR
De um professor na fila da Caixa, ontem, diante da notícia que a UFRN gasta 76% do orçamento com a folha de pessoal: ‘É tudo inveja da Universidade que teve a coragem de criar o limite imprudencial’.

ESTILO
De um deputado nos corredores da Assembleia: ‘João Maia desautorizou Vivaldo como desautorizou a José Agripino, Garibaldi Filho e Wilma de Faria. Rosalba terá sua vez, mas só depois do seu governo’.

ATENÇÃO
Dia sete, próxima quinta, nos jardins do Belo Vista, Paulo Araujo lança seu livro de estreia ‘Como se fossem letras’, edição da editora Novos Escribas. As suas reportagens, entrevistas, ensaios e crônicas.

IMPASSE
A depender do Monsenhor Agnelo Barreto nos seus 80 anos, em maio próximo, a velha e bela Catedral passaria às mãos do padre Francisco Fernandes que faz mestrado na universidade gregoriana de Roma.

MAS…
O arcebispo quer entregar a administração da matriz da Praça André de Albuquerque ao seu secretário particular, padre Flávio Herculano e D. Heitor Sales deseja ver nomeado padre Valquimar Nascimento.

REGISTRO
A edição de fevereiro do almanaque Brasil registra que Câmara Cascudo faria a supervisão histórica do filme ‘O Sertanejo’, de Lima Barreto, e com Adoniran Barbosa no papel de Antônio Conselheiro.

DETALHE
Lima Barreto daí é Victor Lima Barreto que faleceu em 1982 e dirigiu ‘O Cangaceiro’ pela Veraz Cruz. E premiado na década de cinquenta como informou Paulo Coelho, o crítico de cinema das horas vagas.

EFEITO
Na revista ‘Sociologia’, nas bancas, ilustrada por sapatos femininos algemados, uma matéria mostra a influência do capital e da mídia no tipo ideal de amante. Um homem liso, pois, não é bom para amar.

POESIA
De Carlos Gurgel mais dois poemas minimalistas inéditos até hoje: ‘Os olhos / do peixe / na rede. Parece / uma cidade sem água / com sede’. E este: ‘O vento / leva a lua e / com ela / a cidade/ tão nua’.

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