Vive Le Renaissance

A conquista da Copa do Mundo de 1994 não foi suficiente para desmanchar em mim o desgosto pelo futebol canarinho,…

A conquista da Copa do Mundo de 1994 não foi suficiente para desmanchar em mim o desgosto pelo futebol canarinho, adquirido sob estupefação no fatídico jogo pela segunda fase em 1982, quando fomos atropelados pelo talento do pequeno Paolo Rossi.

Mas a função de homem de marketing do saudoso Diário de Natal obrigou-me a idealizar um anúncio promocional para estimular o amor febril dos leitores pelo Brasil naquele momento relevante em que mais uma vez a seleção chegava numa final de copa, em 1998.

Página inteira, abrindo como um pôster uma puta foto de Ronaldo Fenômeno, um texto básico chamando os torcedores potiguares para acompanhar a final em Saint-Denis, e um título num trocadilho de efeito: “O Brasil tem Ronaldo, a França se dane”.

Eu sabia que estava incorrendo no desprezo por um dos mais importantes mandamentos dos cristãos. Mas o que fazer diante de uma rebeldia inata, de uma iconoclastia incurável? O reclame do Diário tomou o santo nome do deus Zinedine Zidane em vão.

E o castigo veio rápido, mesmo antes das duas seleções adentrarem o gramado do Stade de France, atingindo o metabolismo de Ronaldo, provocando inquietação no time, ofertando aos franceses um inimigo assustado que foi abatido pelo deus carrasco.

Zidane não apenas massacrou o Brasil com seus dois gols e participando da jogada que culminou no terceiro, como também catequizou os brasileiros que a tudo assistiam, anulando nosso costumeiro orgulho boleiro. Impossível não aplaudir tanto talento.

Oito anos depois do massacre em três vias, Zidane se encontrou de novo com o Brasil numa copa, em 2006, num sábado cinzento em Frankfurt. Seria sua última participação com a camisa francesa, a imprensa do mundo todo dava manchetes à aposentadoria.

O diário espanhol “Marca” abriu garrafais em nome dos que aprenderam a admirar um gênio da bola: “No te jubiles nunca!”. Sentimento dos amantes da arte no futebol, do estilo de craques como ele, que jamais precisou se valer de jogadas de marketing.

Eu vi aquele jogo de 2006 três vezes num espaço de 24 horas. O primeiro ao vivo, envolto num clima de torcida com alguns amigos; depois, nas reprises do dia seguinte nos canais Band Sports e ESPN Brasil. Um 1 x 0 transformado, de novo, em 3 x 0.

Contemplar três vezes a categoria exuberante de Zidane é ser afetado instanteneamente pela velha “Síndrome de Estocolmo”, o fenômeno psicológio que provoca na vítima uma explosão espontânea de afeição e admiração por seu carrasco, paixão pelo algoz.

Enquanto esteve na ativa, Zinedine Zidane foi como um último moicano, um guerreiro elegante dos gramados com direito a sentar-se no panteão onde já têm trono garantido craques como Di Stefano, Messi, Tostão, Maradona, Zico, Francescoli e Iniesta.

O francês foi um carrasco romântico, um gentleman quando humilhava o adversário. Com a mesma leveza que deitou dois brasileiros com seus dribles, estendeu a mão para levantar um Zé Roberto aos prantos. Ronaldinho o abraçou, como aceitando a rendição.

Durante o jogo em que Thierry Henry despachou o Brasil, Zidane com a mesma magia que deu um balão em Ronaldo e uma cuia em Gilberto Silva, afagou com um beijo as cabeças de Robinho e Cicinho, então candidatos a seus pupilos no Real Madrid.

E pensar que horas antes da partida, brasileiros idiotizados pelo ufanismo midiático gritavam nas ruas de Frankfurt, “ô, ô, ô, Zidane aposentou”, enquanto apresentadores de televisão gozavam dos seus 34 anos e o velho lobo Zagallo uivava “Zidane já era”.

Logo nos primeiros minutos, o francês com sangue africano mostrou que na sua terra não são apenas os vinhos que adquirem perfeição e sabor quando envelhecem. Sua maestria tinha a objetividade da arte do jogo, não a ilusão do malabarismo circense.

Naquela tarde, Zidane se tornou a própria Renascença, o grande movimento de renovação das antigas escolas filosóficas de padrões clássicos, surgido na Europa do século 14. Seu talento tinha a dimensão que os olhos dos deuses do futebol alcançam.

Nada mais clássico do que esse Platão da bola a destruir em noventa minutos a pobre ciência de resultados de um técnico quadrado e sem magia. Carlos Albert Parreira não soube transformar os três craques que tinha e alguns bons jogadores numa equipe.

Entretanto, seu colega no banco da França soube fazer renascer uma seleção na manifestação de arte de um homem só, bailando em vésperas da despedida. Dos pés de Zidane, da visão de Zidane, brotaram a tática e a técnica para calar os reis dos trópicos.

Quisera ter agora a dádiva de traduzir gênios como Zidane, ser um Leonardo Bruni da paixão platônica que arrebata amantes da bola na adoração dos campos. Vi dois ou três maiores que ele, meia dúzia com seus passes objetivos, nenhum com tanta elegância. (AM)

 

Costuras

Com as convenções partidárias marcadas para junho, os entendimentos entre lideranças quanto à eleição de outubro seguirão até o início da Copa, num jogo de xadrez incompreensível para os especuladores das colunas, blogues e redes sociais.

Costuras II

Nada está ainda amarrado, há muitos pontos sem nós em todas as alianças ensaiadas até agora. Está todo mundo conversando com todo mundo, não se enganem. E bem longe dos holofotes da mídia. O jogo dos profissionais passa longe do nosso amadorismo.

Lixo

Passaram a régua em boa parte da sujeira que se acumulou no prédio abandonado pelo MP na Avenida Deodoro. Agora restam os resíduos mais graves, da própria compra e abandono protagonizados por uma instituição vigilante quanto ao erro de terceiros.

Parecer

Caso toda a documentação já requerida pela imprensa seja liberada, convém ater-se a um dos pareceres técnicos sobre a compra do prédio. Há uma opinião frontalmente contrária ao negócio e exposta por um dos profissionais da área técnica do MP.

De Adriano de Sousa

“Na divisão constitucional de atribuições e prerrogativas dos poderes republicanos, não consta (ressalvada a minha ignorância) que o MP, o Tribunal de Contas e o Judiciário tenham tal incumbência”. (Sobre anulação da publicidade do governo)

Petrobras

O poço sem fundo dos escândalos segue com novas descobertas. É o pré-sal da sujeira petralha em destaque. Apareceu um outro contrato cheio de esquemas, como o de Pasadena, desta feita no Japão. E de novo com as digitais de Dilma quando chefa.

Trânsito

Boa iniciativa do Detran-RN com a campanha publicitária pregando gentileza entre os motoristas. Multiplicam-se os casos de violência decorrentes de bate-bocas nos congestionamentos. Agora só falta uma campanha contra a lentidão na via esquerda.

PSD-PSDB

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, autorizou a legenda a apoiar em Minas Gerais o candidato a governador Pimenta da Veiga, o nome de Aécio Neves para enfrentar o petista Fernando Pimentel. A turma de Dilma Rousseff está chiando.

Justiça FC

O Tribunal de Justiça de SP criou ontem um departamento especial para agilizar medidas tomadas nas manifestações durante a Copa. A iniciativa deverá gerar similares nos demais estados. Espera-se muitos protestos e confusões nos dias de jogos.

Atletismo

O Brasil alcançou a primeira colocação nos recentes Jogos Sulamericanos de Santiago, tendo no atletismo a modalidade que conquistou mais medalhas, 41. Bom sinal para os rumos do esporte mais nobre, agora nas mãos do técnico potiguar José Figueiredo.

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