Vizinhos de lagoas reclamam de abandono dos órgãos públicos

Mato, lixo e falta de bombas transformam chuvas em tormentas para famílias que moram no entorno

Foto: Wellington Rocha
Foto: Wellington Rocha

Marcelo Lima

Repórter

A falta de limpeza e a precariedade do bombeamento das águas são as principais reclamações de quem tem um vizinho nada agradável: as lagoas de captação. Numa observação é possível notar que a conservação está longe do ideal esperado pela população que vive apreensiva em cada período de chuva.

Na avenida Ayrton Senna, conjunto Jiqui, a lagoa de captação está pronta para atrapalhar o trânsito e o acesso dos moradores às suas casas por mais curto que seja o período chuvoso. “Se chover só essa chuva fraquinha, de tardezinha ela já vai transbordar”, disse Joelson Cruz, atendente de uma padaria vizinha à lagoa, durante o momento chuvoso da manhã desta terça-feira (8) em Natal.

Ainda segundo Joelson e outros trabalhadores da padaria, não há limpeza na lagoa. O atendente observou que pessoas da Prefeitura realizaram algum serviço que acelerou o processo de escoamento da água. “Semana passada teve um pessoal aí e parece que colocaram uma bomba porque ela secou tão rápido”, testemunhou.

Mas parece que velocidade de bombeamento é proporcional a vazão de água que é despejada nessa lagoa. “Acho que se limpassem, evitava encher rápido também”, acrescentou o atendente. Hoje pela manhã, só como efeito das chuvas da madrugada e do início do dia, o nível da lagoa da Ayrton Senna estava praticamente no limite e um grande volume de água jorrada para dentro dela.

Nas mesmas proximidades, a lagoa de Pirangi, na Avenida São Miguel dos Caribes, também estava com nível alto, mas não o suficiente para transbordar. Segundo o comerciante Alexandre Lima, há cerca de 10 anos a lagoa de Pirangi não transborda mais. “A água daqui vai toda para lá [lagoa de Cidade Satélite]. Antes desse serviço, a avenida ficava intransitável”, disse apontando para uma abertura por onde a água da chuva passa.

Apesar de não haver problemas de transbordamento, o lixo incomoda. “Não existe limpeza de forma alguma. Sempre após uma chuva forte, o lixo se encosta nas margens da lagoa”, contou. Mesmo com a sujeira do lixo e o mato que cresce em volta, três galinhas d’água driblavam pedaços de plástico e garrafas pet durante um passeio pela lagoa de Pirangi.

Tentamos entrar em contato com o gerente de Planejamento e Meio Ambiente da Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana), mas nossas ligações telefônicas não foram atendidas. A Urbana é a responsável pela limpeza do entorno das lagoas de captação de Natal.

Lagoa de São Conrado

O drama de dezenas de famílias de Dix-sept Rosado, que em mais uma temporada de chuvas perderam tudo que tinham dentro de casa, continua até as chuvas cessarem definitivamente este ano. Hoje pela manhã, um grupo de moradores reclamava com um engenheiro responsável pela obra de macrodrenagem. De acordo com o comerciante Lourival Ferreira dos Santos, os moradores queriam que a lagoa parasse de receber águas das obras “Eles têm que parar as bombas. Eu não aguento mais, nem limpamos as casas ainda da chuva que deu. Nós tínhamos combinado com o prefeito que quando chovesse as bombas iam parar”, comentou revoltado. No restaurante de Lourival, localizado nas proximidades da Lagoa de São Conrado, a água chegou a 90 centímetros de altura.

A Secretaria de Municipal de Obras Públicas e Infraestrutura (Semopi) é a responsável pela manutenção das bombas de água nas lagoas de captação da cidade. Tentamos entrar em contato telefônico com o secretário responsável, mas não foi possível. No local, o engenheiro preferiu não falar. A Defesa Civil também retornou ao lugar para avaliar a situação de mais duas casas hoje pela manhã. Elas estariam impróprias para moradia, mas não corriam o risco de desmoronar segundo informações preliminares.

Depósito de carros colabora com dengue

Em frente à lagoa de captação da Avenida da Integração, um depósito lotado de carros da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed) auxilia a proliferar a população de mosquitos aedes-aegypti. O muro do pátio do imóvel ruiu há cerca de dois anos e até agora nada foi feito.

Dentro do terreno, no estacionamento fechado, as paredes e portões estão completamente deteriorados, o que facilita o acesso de qualquer pessoa à sucata do governo do Estado. Na calçada, uma planta trepadeira, que está no que sobrou do muro, conseguiu subir por um fio de eletricidade até o poste.

O lugar é o retrato do abandono dos dois lados da Avenida da Integração, que fica praticamente na esquina de uma das principais entradas de Natal. A lagoa não possui isolamento algum, está cercada por mato e está perto do limite. “Aqui todo mundo já teve dengue. A gente chama o agente de saúde aqui, mas eles não acham nada é só aí mesmo”, disse Laélia Bezerra, uma vizinha do depósito e da lagoa.

A moradora de Candelária já até se adaptou a situação de alagamento. Laélia já perdeu o muro da sua casa e toda vez que a lagoa enche tem que pedir para deixar o carro na casa do vizinho. No período de chuva, sua casa possui uma pequena barricada montada pelo jardineiro. “Você paga 2 mil e tanto de IPTU e não tem nada de retorno”, disse resignada. Ela também afirma que não há nenhum tipo de bombeamento das águas.

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