Volta interrompida

Acordou indeciso. O coração mandava voltar, o desejo havia devorado sua resistência, mas as informações desanimavam. Como em todas as…

Acordou indeciso. O coração mandava voltar, o desejo havia devorado sua resistência, mas as informações desanimavam. Como em todas as manhãs do exílio forçado e do tempo sem cronômetro, vislumbrou fotografias e recortes, elogios que não lhe serviam para nada, ego dilacerado pelas pancadas físicas e morais sofridas.

Pensou em monólogo. A solidão de interlocutora ensinara-lhe a paciência perdida para o encanto brotando do dinheiro fácil das noitadas, da expectativa de riqueza incontestável até a brusca interrupção e o sumiço pela vala insalubre do ostrascismo.

Temia a reação dos amigos, cupinchas de farra, cúmplices no repertório de desculpas esfarrapadas pelas escapulidas noite adentro, dono das boates, bocas, inferninhos e das contas. “Hoje quem paga sou eu” encerrava a madrugada profana na voz pastosa e ridicularizada pelos falsos companheiros e pelas putas, nas quais a falsidade é matéria obrigatória de currículo.

Resolveu. Recomeçaria. Procuraria aqueles que o bajulavam em troco de um trocado e de uma segunda chance numa escala de alcoólatra. Por vergonha, mente muito mais do que duas vezes o doente de alcoolismo tratado como um traste quando deveria merecer menos piedade e pirraça e mais solidariedade e apoio médico.

Alcoólatra, que alcoólatra? Papo careta. Bebia sim. Devagar. Pouco. Gostava era dos dividendos exteriores do digno emergente. Estampado no contraste com os moradores dos condomínios de luxo, a quem estirava o dedo e a língua, debochado como sempre. E de quem recebia olhares censores de gato entre pombos, de anomalia, de preto entre brancos bem nutridos e petulantes. Um favelado no oásis da burguesia.

Tomou um energético e riu baixinho, lembrando daquele tempo de vagão de trem, tempo de passagem, tempo ligeiro, incondicional e inclemente. Perdera tudo menos o bom humor.

A clausura do lugar onde se mantivera recolhido, prudente, tinha suas compensações. A sensação de uma temperatura amena e aconchegante, iluminada por um clarão de reativar esperança em candidato a suicída.

Tinha superado esse estágio. A morte passou de ameaça para banalidade. Decidiu ressurgir. Ou tentar. Começou pelo local de trabalho onde um dia foi rei. O velho porteiro Canindé não estava. Um segurança com jeitão de orangotango pediu-lhe identidade e ele protestou na boa, pacífico como santo de historinha de acalmar menino: “Eu trabalhei aqui, fui famoso, sou( e disse o nome).”

O guarda-roupa de paletó, rádio-transmissor e uma pistola indiscreta espetando o tecido fajuto do blazer caiu numa gargalhada de surto: ” Tá bom, você é o cara que está dizendo que é e eu sou o Stallone combinado? Some daqui cara! Antes que eu perca a paciência e tê dê umas porradas”.

>>>>>>

Depois da frustração naquela que considerava sua casa, bateu o arrependimento e resolveu circular sem destino. Encontrou um parceiro de longas jornadas, acenou, a meio metro, o cara não respondeu, não esboçou reação.

Caiu uma lágrima do rosto de feições adolescentes mesmo com o tempo impiedoso. Sentou numa pracinha. Puxou conversa com uma senhora que lia revista de novela e não olhou pra ele.

Prestou atenção num grupo de meninos treinando num campo cercado de arame farpado. Um gladiador de filme com Van Damme mandava a garotada correr, dar carrinho, se fechar na defesa e ter cuidado com a marcação de meio-campo.

Impressionava a quantidade de carros de luxo e de madames gritando pelos fihos sem cacoete para relacionamento duradouro com a bola. Um deles caiu e machucou o braço. Faltava alguém pra completar um dos times.

Sentado na praça, enterrado no tédio, saltou quando o técnico perguntou se ele queria entrar “pra fazer número”. Sem chuteira, tirou a sandália de dedo e pediu a bola. Num jogo de cintura, caíram quatro. A fila de marcadores, ele venceu como tesoura de cortar unha. Driblando.

O goleiro veio para rachar sua perna direita. Tomou chapéu. Ele matou no peito e deu um toquinho para dentro da trave. O professor encerrou: “o amigo vá me desculpando. Reconheço que tu deve ter jogado demais. Mas não humilhe os meus meninos”.

De jeito nenhum. O mundo dele mudara. Jogar bonito é humilhar? Antes de dar meia-volta, passou pela porta de um magazine e, pela TV, viu brigas de torcidas, gols roubados e o Ituano ser campeão paulista.

Viu também um enorme cartaz com dribles de um magrinho de cabelo espetado. “bom né?” Tentou saber quem era perguntando ao pasteleiro. “Pôrra meu, vai dizer que não conhece Neymar, o melhor depois de Pelé”.

Bastou para que Denner Augusto de Souza desaparecesse na primeira nuvem e voltasse decepcionado ao infinito, 20 anos depois de morrer asfixiado pelo cinto de segurança do seu carro, enquanto dormia.

Jogava pelo Vasco e o acidente aconteceu a 19 de abril de 1994 perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro . Denner tinha 22 anos e a virtude exclusiva de um semideus em construção. O poeta do drible resolveu dar marcha-ré na quimera do passeio voador. Saudade do anjo arisco de asa quebrada e final de fazer chorar.

Com que time?

O ABC vai estrear contra o Santa Cruz. Nas primeiras rodadas, a tendência é a repetição ou o revezamento dos jogadores que sobraram no fracasso do Estadual.

Copa do Brasil

Será 19h30 de quarta (23), jogo da volta entre América x Boavista pela Copa do Brasil na Arena das Dunas.

Assombroso

Famoso pela truculência, o País de Gales presenteia o futebol com o talento assombroso de Gareth Bale. Na vitória sobre o Barcelona, ele foi Messi de camisa branca. O argentino não viu a cor da bola e Neymar perdeu um gol feito no final. Real Madrid não é Paulista de Jundiaí.

Semana Santa

Por estas horas, estávamos a vestir Judas Iscariotes, o delator de Jesus Cristo. O boneco representando o apóstolo traíra dos 30 dinheiros. De sexta para sábado, destruíamos o mamulengo com uma ira que certamente não vinha lá dos deuses.

Sofrimento contra a Finlândia

No dia 17 de abril de 1986, o Brasil venceu a Finlândia por 3×0 no Mané Garrincha, em Brasília Telê Santana não conseguia definir um time. Gols de Oscar, Marinho e Casagrande.

Time

O Brasil venceu com Carlos (Paulo Vítor); Leandro, Oscar, Mozer e Branco; Elzo, Sócrates (Silas) e Muller (Casagrande); Marinho, Careca e Edivaldo.

Compartilhar: