Volume de carga cai 50% no Porto de Natal durante a entressafra

Trabalhadores portuários amargam falta de serviço

Porto-de-Natal---Containers-HD

Marcelo Hollanda

hollandajornalista@gmail.com

Mal o porto de Natal comemorou no ano passado um aumento de 26% no volume de cargas registrado em 2013 em relação a 2012, o anúncio da saída de Del Monte, a maior exportadora de baba do Estado, tratou de acender a luz vermelha para trabalhadores portuários, que já amargam falta de serviço na entressafra de fruta.

Nessa época do ano, tradicionalmente, o volume de cargas despenca pela metade, caindo de 650 contêineres em média por operação para algo em torno de 300. Enquanto o movimento não se restabelece, os estivadores, por exemplo, aumentam consideravelmente seus pedidos de adiantamento para o sindicato da categoria, que faz pequenas antecipações descontadas em vencimentos futuros.

“A gente faz o que pode dentro do mínimo que é possível”, diz o presidente do Sindicato dos Estivadores, Lenilton Fonseca Caldas. Para uma entidade cujo orçamento não passa dos R$ 150 mil por ano, as antecipações são feitas caso a caso para não deixar as famílias dos trabalhadores privadas do mínimo, como o arroz e feijão da despensa.

No caso dos estivadores, dos 90 trabalhadores disponíveis para o serviço, pelo menos 50 fazem parte de um cadastro de reserva requisitado sempre que é necessário suprir a mão-de-obra durante a safra. Mas este ano, com o anúncio da suspensão das operações por parte da Del Monte, os sindicatos resolveram agir.

Na semana que vem eles pretendem começar uma série de visitas aos poderes para levar essa situação às autoridades e associações de classe. Hoje pela manhã, reunido no Sindicato dos Estivadores, representantes dos Arrumadores, dos Conferentes e até a praticagem, que orienta a entrada e saída de navios, estiveram presentes.

“Todo o ano prometem ações para aumentar as cargas pelo porto de Natal, mas nada acontece e a situação do trabalhador só piora”, diz Lenilton, dos Estivadores, eleito no ano passado.

Ontem, o Diário Oficial da União publica o aviso de licitação da Companhia Docas do RN (Codern) para a construção do Beço 4 do Porto de Natal, com 220 metros de cais e retroárea, num total de 10.766 metros quadrados de ampliação. Inclusive, no processo licitatório, estão incluídas as defensas da ponte Newton Navarro, que motivou a proibição de trânsito no terminal depois das 17 horas. A abertura das propostas está marcada para o próximo 25 de abril.

Hoje, os representantes dos sindicatos ligados ao porto comentaram a informação com otimismo moderado. “Sabemos que a falta de carga é o problema crucial de um porto, mas a expansão da retroárea passa por uma série de outras providências, como a reocupação da comunidade do Maruim, um assunto falado há décadas sem que nada aconteça”, afirma o presidente do Sindicato dos Conferentes, Alberto Avelino de Almeida.

Segundo Sebastião Leite, o mais antigo prático em serviço no Porto de Natal, a inquietação dos trabalhadores cresce na medida em que as chuvas voltam a cair sobre as áreas produtoras de frutas, trazendo como consequência uma quebra na produção e redução significativa no teor de açúcar das frutas. “São informações como essas que aumentam a inquietação do trabalhador que tira seu sustento do porto”, acrescenta.

Outro grande problema é a carga de retorno, que mantém os níveis de ocupação dos navios. Hoje, eles chegam com muitos contêineres ocupados apenas com caixas de papelão que receberão as frutas quando elas forem carregadas nas propriedades antes de voltarem para o embarque.

Uma das saídas seria o retorno da navegação de cabotagem (trânsito dentro do próprio país), o que aumentaria as chances do porto crescer consideravelmente seu volume de cargas. “Mas esse é outro assunto que nunca sai do lugar por mais que se discuta”, diz Sebastião Leite.

A esperança é que novas linhas para Natal se materializem, como a dos Estados Unidos e do Chile, para reverter um pouco a ociosidade da entressafra. “Nós queremos entender se essas linhas poderão iniciar operação no curto prazo ou se é apenas mais uma perspectiva distante”, diz Wilson Duarte dos Santos, presidente do Sindicato dos Arrumadores.

Embora o número de navios tenha diminuído nos últimos anos, com a chegada da CMA/CGM, o primeiro armador de porta-container a operar no terminal, houve uma aumento significativo das cargas. “Resta agora manter um bom volume para o ano todo, o que deve ser um interesse do governo estadual e dos empresários”, opina o prático Sebastião Leite.

Outra preocupação dos sindicatos é com o assédio agressivo dos portos cearenses, que lutam com muito mais afinco por suas metas de curto, médio e longo prazo. “Na verdade, eles (os cearenses) fazem o seu dever de casa, enquanto nós demoramos muito para agir de uma maneira mais consistente”, admite Lenilton, dos Estivadores.

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