A voz autorizada

Aqui vai a coluna publicada na edição desta terça-feira (10) de O Jornal de Hoje. Termino de ler a biografia…

Ava & Frank

Aqui vai a coluna publicada na edição desta terça-feira (10) de O Jornal de Hoje.

Termino de ler a biografia Frank – A Voz (Companhia das Letras;747 páginas;R$69,00) e fico sabendo que ela é apenas o primeiro volume de uma obra dupla, com o segundo tomo a ser lançado no Brasil em 2014. Nas livrarias norte-americanas desde 2010, o livro escrito pelo jornalista, roteirista e romancista James Kaplan tem sido apontado como o trabalho definitivo sobre a vida do maior crooner que já existiu. Numa época de big bands, em que o cantor era apenas uma peça na engrenagem conduzida por líderes, como Artie Shaw, Benny Goodman, Glenn Miller e Duke Ellington, ele aproveitou o surgimento do microfone elétrico e dos LPs como ninguém, para se transformar no primeiro pop star no show business americano – dez anos antes de Elvis e vinte dos Beatles.

Nesta primeira parte, Kaplan vai do nascimento até 1954, ano em que Sinatra ganhou o Oscar de ator coadjuvante por A Um Passo da Eternidade. Era um momento de baixa, de raras gravações, queimado como estava com estúdios, imprensa e com a opinião pública americana, que não engolira sua separação da ordeira e cristã Nancy para cair nos braços da libertina Ava Gardner. Por sinal, a biografia poderia se chamar Frank & Ava, de tanto que a atriz está presente na história – com sérios problemas de autoestima, as traições e brigas que tinha com Ava o afundaram em um período sombrio que parecia interminável; ela foi a única mulher indomável em sua lista de conquistas, que incluiu Lana Turner e centenas de deusas hollywoodianas.

Além da suposta ligação com a máfia, flagrada em um congresso do crime realizado em Havana, Cuba, por um repórter xereta que estava por lá para entrevistar Ernest Hemingway. Frank carregava uma maleta com U$2 milhões ao ser fotografado saindo do hotel Nacional, o mais chique da capital cubana, cujos proprietários eram nada menos que Meyer Lansky e Fulgêncio Batista, o maior mafioso da época e o ditador da ilha, respectivamente. Como toda biografia de personagens polêmicos, escândalos e fofocas ocupam boa parte do livro, ainda mais se tratando de Sinatra, mas o trunfo de Kaplan é ter ouvido dezenas de músicos que enalteceram a qualidade artística do biografado.

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Com isso a batalha por um lugar ao sol da indústria fonográfica correu paralela ao drama no casamento com Nancy e ao sofrimento com Ava, compondo uma narrativa que nos chega com ar de romance – suas mais de 700 páginas viram uma novela viciante. Tem a peleja com o bandleader Tommy Dorsey, ícone da Era do Swing que abriu sua orquestra para Sinatra brilhar – a parceria terminaria na Justiça, pois Dorsey não queria liberá-lo para a carreira solo. E também uma arenga pública com um colunista, que o perseguia feito um maníaco em seus textos, resultou em um espancamento e novo processo – apesar de franzino, Frank era metido a brabo, muito por ter sempre ao lado o capanga Hank Sanicola.

Mas, talvez, o que mais emociona em Frank – A Voz seja a obsessão do cantor pelo papel de Angelo Maggio, o soldado ítalo-americano que ele se apaixonara ao reler o livro A Um Passo da Eternidade umas trinta vezes. Só que a Columbia Records queria distância do então fracassado, que mal cobria custos de gravação com a vendagem de discos e que amargava uma serie de filmes bobos no currículo – Ava interveio ao pedir o papel pessoalmente à mulher do chefão do estúdio. O preço cobrado pela ajuda foi uma penca de casos extraconjugais – Ava devorou de Clark Gable a toureiros espanhóis. Quando Frank tinha o orgulho masculino ferido sua voz acompanhava a queda. E o público percebia.

O segundo volume será Sinatra – The Charmain of the Board, apelido dado por um radialista importante nos anos 1950 e 1960 por causa de sua posição na música e pela ambição de controlar tudo de sua carreira profissional. Existem várias biografias de Frank Sinatra. Todas se valem dos escândalos sexuais (Frank e Ava eram obcecados por prostituição e tinham energia suficiente para sustentar a tara). Kaplan fala disso também, não tinha como fugir, mas muito também do lado artístico de um cara que entendia o que estava fazendo ao dispararem o play. A transformação do baixinho magrela, com cicatrizes no rosto destruído após o parto brutal com um fórceps (evitava fotos do perfil esquerdo), no astro mundial é o trunfo para justificar a aquisição deste livro que já nasceu clássico.

 

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