A voz autorizada

Termino de ler a biografia Frank – A Voz e fico sabendo que ela é apenas o primeiro volume de…

Termino de ler a biografia Frank – A Voz e fico sabendo que ela é apenas o primeiro volume de uma obra dupla, com o segundo tomo a ser lançado no Brasil em 2014. Nas livrarias americanas desde 2010, o livro escrito pelo jornalista, roteirista e romancista James Kaplan tem sido apontado como o trabalho definitivo sobre a vida do maior crooner que já existiu. Numa época de big bands, em que um cantor era apenas uma peça na engrenagem conduzida por líderes, como Artie Shaw, Benny Goodman, Glenn Miller e Duke Ellington, ele aproveitou o surgimento do microfone elétrico e dos LPs como ninguém, para se transformar no primeiro pop star no show business americano – dez anos antes de Elvis e vinte dos Beatles.

Nesta primeira parte, Kaplan percorre desde o nascimento até 1954, ano em que Sinatra ganhou o Oscar de ator coadjuvante por A Um Passo da Eternidade. Era um momento de baixa, de raras gravações, queimado como estava com estúdios, imprensa e com a opinião pública americana, que não engolira sua separação da ordeira e cristã Nancy para cair nos braços da libertina Ava Gardner. Por sinal, a biografia poderia se chamar Frank & Ava, de tanto que a atriz está presente na história – com sérios problemas de autoestima, as traições e brigas que tinha com Ava o afundaram em um período sombrio que parecia interminável; ela foi a única mulher indomável em sua lista de conquistas, que incluiu Lana Turner e centenas de deusas hollywoodianas.

Além da suposta ligação com a máfia, flagrada em um congresso do crime realizado em Havana, Cuba, por um repórter xereta que estava por lá para entrevistar Ernest Hemingway. Frank carregava uma maleta com U$2 milhões ao ser fotografado saindo do hotel Nacional, o mais chique da capital cubana, cujos proprietários eram nada menos que Meyer Lansky e Fulgêncio Batista, o maior mafioso da época e o ditador da ilha, respectivamente. Como toda biografia de personagens polêmicos, escândalos e fofocas ocupam boa parte do livro, ainda mais se tratando de Sinatra, mas o trunfo de Kaplan é ter ouvido dezenas de músicos que enalteceram a qualidade artística do biografado.

Mas, talvez, o que mais emociona em Frank – A Voz seja a obsessão do cantor pelo papel de Angelo Maggio, o soldado ítalo-americano que ele se apaixonara ao ler e reler o livro A Um Passo da Eternidade umas trinta vezes. Só que a Columbia Records queria distância do então fracassado, que mal cobria custos de gravação com a vendagem de discos e que amargava uma serie de filmes bobos no currículo – Ava interveio ao pedir o papel pessoalmente à mulher do chefão do estúdio. O preço cobrado pela ajuda foi uma penca de casos extraconjugais – Ava devorou de Clark Gable a toureiros espanhóis. Quando Frank estava mal da cabeça sua voz acompanhava a queda. E o público percebia.

O segundo volume será Sinatra – The Charmain of the Board, apelido dado por um radialista importante nos anos 1950 e 1960 por causa de sua posição na música e pela ambição de controlar tudo de sua carreira profissional. Existem várias biografias de Frank Sinatra. Todas se valem dos escândalos sexuais (Ava e ele eram obsecados com prostituição e tinham energia suficiente para sustentar a tara). Kaplan fala disso também, não tinha como fugir, mas muito também do lado artístico de um cara que entendia o que estava fazendo ao dispararem o play. A transformação do baixinho magrela, com cicatrizes no rosto destruído após o parto mal feito com um fórceps (evitava fotos do perfil esquerdo), no astro mundial é o trunfo para justificar a aquisição deste livro que já nasceu clássico.

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