Zezinho, apenas ele
Um poeta sem caneta, Zezinho do ABC , irmão do artilheiro Jorge Demolidor. Manuel Bandeira de chuteiras, inteligência, dribles e bailado superior, negra genialidade transformando, em sol radioso, os gramados por onde desfilava.
Cabeleira black power padrão das décadas de 1970 e 1980, Zezinho herdou a camisa 10 do maestro uruguaio e maior de todos os meias-esquerdas alvinegros, Danilo Menezes. Zezinho jogava armando como Danilo Menezes e concluindo de ponta-de-lança, rivalizando com Marinho Apolônio, então astro do América.
Em 1976, convocada pela paixão inigualável do falecido radialista Souza Silva, o Repórter da Frasqueira, a torcida passava a chegar mais cedo às tardes de clássico para assistir aos jogos dos juvenis.
Para ver Zezinho dominar a bola sem olhar ao chão, fintar o adversário de um jeito carioca de ser e lançar na ponta-esquerda para Dennis Lisboa, mais tarde a referência de habilidade canhota do futebol de salão potiguar.
Uma geração promissora e talentosa de verdade. Zezinho comandava um time com Berg, um driblador inspirado que parou cedo pelas pancadas tomadas no joelho, versátil de centroavante ou também na ponta-esquerda, onde sua fama foi cristalizada anos depois.
Em 1977, faltava um ponta-de-lança e Zezinho entrou no time titular. Danilo Menezes mantinha o domínio da organização cerebral. Chegou de Mossoró outro talento, o rebelde Maranhão Barbudo, que se fez titular com Zezinho deslocado para a direita com um quadrado(o primeiro oficial) da Era Castelão(Machadão).
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Zezinho sabia do seu repertório. Era abusado, diferente do irmão, goleador e pacato. Quando ficou na reserva, o técnico Waldemar Carabina, famoso ex-zagueiro da Academia do Palmeiras, mandou buscá-lo no Rio de Janeiro e entregou-lhe a camisa 8.
Contra o Cruzeiro de Raul, Nelinho, Eduardo, Revétria e Joãozinho, temido campeão mineiro de 77, uma atuação para ser impressa em chumbo e posta em placa. Um públco superior a 35 mil felizardos viu um dos gols mais bonitos do estádio transformado em saudade forçada.
Placar de 2×1 para o Cruzeiro e aos 28 minutos do segundo tempo, sentado nas cadeiras numeradas, chamadas de “bancos de igreja’, também vi o que os meninos de hoje jamais sonham ter direito. Danilo Menezes, pelo lado esquerdo, ganha na corrida do volante Flamarion, que chegaram a comparar a Piazza, mas nunca passou de Flamarion.
Danilo Menezes chega à meia-lua e estanca diante do carniceiro Morais, zagueiro responsável com seu comparsa Darci, pela destruição da carreira do gênio Reinaldo, do Atlético(MG). Danilo ameaça chutar e Morais estica a perna. Danilo mete a bola para Zezinho por dentro das canetas de Morais e o menino bate de trivela, por cima do goleiraço Raul. Empate final em 2×2, estádio em êxtase.
Zezinho, vendido ao XV de Piracicaba(SP) em 1979 , voltou no ano seguinte para o Campeonato Brasileiro, o ABC decidido a lhe entregar a camisa e a liderança de Danilo Menezes, aos 35 anos e decidido a encerrar a carreira.
O ABC passou para a segunda fase com Zezinho, contrariado, escalado de centroavante. Fez o gol da vitória por 3×2 sobre o Uberaba(MG) e, por entre os zagueiros, fez uma das maiores exibições individuais de um jogador pelo ABC.
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Contra o América Mineiro, no Mineirão. O ABC perdeu o primeiro tempo por 3×0 e Zezinho parecia em Saturno, debatendo com lunáticos. No intervalo, o técnico Servílio, também já falecido, ordenou que ele recuasse e buscasse as tabelas com Danilo Menezes. Servílio pediu ainda ao ponta-esquerda Noé Macunaíma que parasse de ciscar em frente ao lateral Higino e recuar a bola.
Ungido, Zezinho diminuiu o placar para 3×1. O América nem se incomodou quando ele, em jogada individual, deixou o jogo em 3×2. Pelas ondas do rádio, a torcida alvinegra delirou quando Zezinho fintou três beques e deixou Noé Macunaíma livre para empatar. Aos 42 minutos do segundo tempo, Zezinho chapelou dois zagueiros e colocou devagar a bola no canto direito, escrevendo uma das maiores viradas do ABC em todos os tempos: 4×3 e no Mineirão.
Souza Silva, possesso, colocou o apelido fatal: “Eis o Zezinho, o Pelé do ABC”. Dias depois, na página de esportes de um jornal de Natal, duas fotografias, Pelé, do Santos, de costas, com a 10 e Zezinho, do mesmo jeito com camisa de igual numeração do ABC.
Zezinho virou Zezinho Pelé e não estava preparado para o peso da responsabilidade. Seu talento jamais deixou de luzir, mas a cada partida ele teria que repetir o jogo do Mineirão. Já sem Danilo Menezes, foi o único craque do time vice-campeão nos pênaltis em 1980. O América tinha Norival, Didi Duarte e Marinho Apolônio pelo meio-campo e Zezinho em más companhias.
Em 1983, Zezinho, num caso de Síndrome de Estocolmo futebolística, é contratado pela vítima, o América Mineiro. Volta a ser apenas Zezinho. Eleito o melhor camisa 10 do ano. Vendido ao futebol português, por lá encerrou a carreira. Zezinho nunca foi Pelé, Alberi ou Danilo Menezes. Zezinho foi um craque. Foi ele e mais ninguém.
América nada de braçada
Com mais duas vitórias, uma sobre o Salgueiro e outra em casa contra o ASA(AL), o América sacramenta a classificação antecipada à próxima fase da Copa do Nordeste. A vitória sobre o Salgueiro poderia ter sido mais robusta.
ABC na enforcada
Hoje, para se ter uma ideia , só tem campanha menos deplorável que o desempenhos do ASA, sem pontuar, empata com o Feirense(BA) e perde para o Sousa(PB) com uma vitória. Patético início.
Itabaiana
O Itabaiana é um clube mediano, um Palmeira de Goianinha ou Potyguar de Currais Novos com alguma qualidade a mais. Fez zombaria na área alvinera. Basta rever o primeiro gol e que o camisa 11 dá passe de chapa e balança como mestre-sala diante de zagueiros atônitos.
Pior
O melhor do Brasil é o brasileiro, disse, tome tempo atrás, o Mestre Luiz da Câmara Cascudo. Não havia mensalões há época. O pior do ABC, time de Cascudo, é a arrogância, que o vem derrotando desde o ano passado. Depois da lapada de 3×1, a bandinha de música oficial da UDN pós-moderna da Rota do Sol continuava na marcha, é melhor assim do que piorar. Pode piorar?
ABC vitorioso
No tempo de Bira Rocha e Prudêncio, a grana paga a um Superintendente de Futebol valia uns dois goleadores.


